A Força de uma Idéia

Os árabes injetaram na guerra uma força completamente nova, a força de uma idéia. É certo que a ideologia desempenhara seu papel na guerra anteriormente. O ateniense Isócrates conclamara uma “cruzada” grega contra  Pérsia no século IV a.C., na qual a idéia de liberdade estava implícita. Em 383, durante a luta do imperador Teodósio contra os godos, o romano Temístico argumentara que a força de Roma não estava “em peitos de armas e escudos, ou em incontáveis massas de soldados, mas na Razão”. Os reis judeus tinham combatido em pacto com seu Deus único e todo-poderoso, enquanto Constantino evocara a imagem da cruz para trazer-lhe a vitória sobre um pretendente na batalha da ponte Mílvio. Contudo, foram idéias abafadas ou limitadas. Embora os gregos se orgulhassem de sua liberdade e desprezassem os súditos de Xerxes e Dario por não a terem, o ódio deles pela Pérsia era de fundo nacionalista. O apelo à razão não tinha força numa época em que os exércitos de Roma já estavam bastante barbarizados, com suas fileiras cheias de soldados selvagens que jamais tinham ouvido a palavra razão. Constantino, por sua vez, ainda não era cristão quando proferiu seu apelo à conquista em nome da cruz; e, embora os reis guerreiros de Israel possam ter tirado força da velha promessa divina em suas guerras pequenas e locais, os cristãos da nova promessa se angustiariam durante séculos em torno da questão de saber se a guerra era moralmente permissível ou não. Com efeito, os cristãos jamais encontraram unanimidade na crença de que o homem de guerra pode ser também um homem de religião; o ideal do martírio sempre foi tão forte  quanto o de luta justificada, e continua forte até hoje. Os árabes dos anos de conquista não estavam presos a esse dilema. Sua nova religião era  um credo no conflito que ensinava a necessidade de submissão aos seus preceitos revelados e o direito de seus seguidores de pegar em arma contra os que se opunham a ele. Foi o islamismo que inspirou as conquistas árabes, as idéias do islã que fizeram dos árabes um povo militar e o exemplo de seu fundador, Maomé, que os ensinou a se tornarem guerreiros.

Maomé não era apenas um guerreiro, que fora ferido numa batalha em Medina contra os homens de Meca, em 625. Ele pregava, além de praticar a guerra. Em sua última visita a Meca, em 632, estabeleceu que, embora todos os muçulmanos fossem irmãos e não devessem lutar uns contra os outros, eles deveriam lutar contra todos os outros homens até que dissessem “não há outro deus senão Alá”.

Uma História da Guerra – John Keegan

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