
Do ponto de vista evolucionário, o corpo físico tem a sua história própria, que remonta literalmente há mais de quatro milhões de anos, quando, segundo a antropologia, surgiram os nossos primeiros ancestrais que andavam em duas pernas e tinham as mãos livres para praticar diversas atividades impossíveis aos animais quadrúpedes.
A ciência pode dizer-nos muita coisa a esse respeito, mas não é propósito desse livro invadir o campo da biologia evolucionária humana. Também não é propósito desse livro abranger demais a natureza da própria mente, mas ela tem uma antiqüíssima história evolucionária que, como é o caso do próprio corpo, está em constante transformação. […]
Esse processo certamente se estende a períodos que em muito antecedem o surgimento da própria linguagem humana, conforme a conhecemos. Segundo a teoria jungiana, tudo o que foi captado através dos milênios permanece conosco, embutido em nossos cérebros, codificado em nosso DNA. Os sonhos captam uma parte do conteúdo desse aspecto da mente.
[…] Como Jung acreditava na existência de uma alma não-material, é natural que ele também tivesse associado esse “eu” inteligente e não-material à mente inconsciente coletiva. Esse aspecto da mente antecederia e transcenderia a qualquer consideração que envolva o cérebro. O conhecimento, assim, poderia ser algo extra-sensorial; e tal conhecimento poderia chegar até nós pelos sonhos. Jung acreditava na função espiritual essencial dos sonhos e foi inevitável que ele viesse a relacionar a alma com essa função da mente.
Alguns filósofos, na busca de evidências favoráveis à independência da mente (isto é, que a mente não pode ser comparada ao cérebro) emprestaram evidências extraídas do campo da psicanálise.
[…] Os sonhos são egoístas: esse é um ponto que costumo enfatizar com muita veemência para todos aqueles que procuram por mim em busca de ajuda para a explicação de seus sonhos. Apesar de existirem sonhos altruístas (pois algumas pessoas vivem realmente para servir ao próximo), uma das principais funções dos sonhos, senão a principal, consiste essencialmente em dar instruções ao sonhador; a maioria dos sonhos – e a maioria dos símbolos neles contidos – faz alusão ao próprio sonhador. Em nossos sonhos vemos a nós mesmos, até através de símbolos que a princípio nem relacionaríamos a nós. Assim sendo, pessoas de ambos os sexos podem falar conosco de diferentes ângulos. Por exemplo: quando sonhamos sobre uma irmã, é possível que a interpretação desse símbolo seja não a própria irmã, mas algo que nela espelhamos, uma qualidade, um defeito.
Também nos sonhos podem aparecer animais, na realidade, representando o sonhador; outros símbolos são objetos inanimados que devem ser interpretados de acordo com o significado que atribuímos, pessoalmente, a eles. Portanto, lembrar-se do fato que um sonho geralmente é uma mensagem vinda de um nível do próprio “eu” e dirigida a outro nível é um aspecto vital na interpretação.
Um aluno de fisioterapia ficou muito preocupado com um sonho envolvendo a tia com quem ele havia morado antes de ingressar na universidade. No sonho, a tia lhe dirigia ofensas e lições de moral. Ele ficou indignado, pois não considerava a tia um modelo de moralidade. Chegou a questioná-la no sonho com que “autoridade” ela dizia tudo aquilo. Na vida desperta, ele não conseguia encontrar o fio que ligava o sonho à sua vida diária.
Quando o questionei sobre seu relacionamento com a tia, ele acabou reconhecendo que quase não falava mais com ela por causa de seu autoritarismo e do seu pseudomoralismo – a tia pregava certas condutas em relacionamentos amorosos, como abstenção do sexo, a necessidade do casamento, mas na prática fazia o oposto do que dizia.
Esses motivos foram decisivos para que ele deixasse a casa dela. Levando o processo de interpretação do sonho um pouco mais adiante, perguntei qual era o seu relacionamento atual que não ia bem por causa de sua própria característica autoritária e pseudomoralista.
Percebi que ficou surpreso com a pergunta, mas para mim estava claro que ele estava se vendo na própria tia e que algum relacionamento atual dele estava acabando por causa de suas próprias atitudes. Este aluno havia transportado o símbolo da tia para que refletisse a si mesmo.
Quase atônito, ele relacionou minha sugestão com um namoro e acabou percebendo que ele era mandão e que, de fato, estava se deixando envolver com outra moça, exatamente aquilo que ele mais desprezava na própria tia, com quem sonhou.
Outra aluna, também de fisioterapia, sonhou que o prédio no qual morava ruía em cima dela. Apavorada, ela conseguia escapar, mas ficava chocada ao olhar para trás e ver os escombros da construção. Ela questionou se eu acreditava que o prédio onde ela vivia podia de fato cair, e imediatamente afastei essa possibilidade, afirmando que o prédio que estava ruindo era o “prédio da vida dela”, isto é, que a vida dela estava indo mal e que ela poderia estar com medo que o “prédio da vida” (da estrutura familiar e econômica) estivesse arruinado. A sonhadora não havia percebido que o prédio era, de fato, a vida dela. Também nesse caso, a auto-percepção foi dolorida, mas possibilitou uma reação.
O portal dos sonhos – Darrell S. Champlin
Publisher Brasil
ISBN 8585938307

sábado, 10 outubro, 2009 

“O pensamento supõe a vontade; o sonho não. O sonho, que é completamente espontâneo, conserva, mesmo quando irrealizável, o perfil de nossa espiritualidade; nada sai mais diretamente e mais sinceramente do fundo de nossa alma que as nossas aspirações irrefletidas e sem limites para os esplendores do destino. Nessas aspirações, muito mais que nas ideias coordenadas, refletidas, sensatas, pode encontrar-se o caráter de cada homem. Nossas quimeras são as que mais se assemelham a nós. Cada um sonha com o desconhecido e o impossível segundo a própria natureza”
Os Miseráveis – Victor Hugo