Pedantismo

Mesmo que pudéssemos ser eruditos com o saber de outrem, pelo menos sábios só podemos ser com nossa própria sabedoria.
Da freqüentação do mundo tira-se uma admirável clareza para o julgamento dos homens. Estamos encolhidos em nós mesmos e temos a visão limitada ao comprimento de nosso nariz. Perguntaram a Sócrates de onde ele era. Ele não respondeu: “De Atenas”, e sim: “Do mundo”. Ele, que tinha o pensamento mais aberto e mais amplo, abarcava o mundo como sua cidade, projetava seus conhecimentos, sua sociedade e suas afeições para todo o gênero humano, e não como nós, que olhamos apenas à nossa roda. Quando em minha aldeia os vinhedos congelam, nosso padre atribui isso à ira de Deus sobre a raça humana, e imagina que o gogo (ou gosma: doença que impede os galináceos de beber; daí, sede intensa) já tenha dominado os canibais (Habitantes do Brasil atual). Ao ver nossas guerras civis, quem não brada que esta máquina está desarranjando e que o dia do juízo nos agarra pelo pescoço, sem se dar conta de que já se viram muitas coisas piores, e que entrementes as dez mil partes do mundo continuam a levar vida mansa?
Ouço pessoas que se desculpam por não conseguirem expressar-se, e dão a impressão de que tem a cabeça cheia de muitas coisas belas, mas que, por falta de eloqüência, não as conseguem divulgar: isso é mistificação. Sabeis o que é isso, em minha opinião? São sombras que lhes advêm de algumas concepções informes, que eles não conseguem deslindar e esclarecer interiormente, nem portanto mostrar exteriormente: nem sequer entendem a si mesmos. Vede um pouco como gaguejam no momento de dar à luz, e compreendereis que sua dificuldade não está no parto e sim na concepção, e que não fazem mais que lamber (alusão à ursa, que lambe os filhotes para dar-lhes forma) essa matéria imperfeita. De minha parte sustento, e Sócrates assim ordena, que quem tem no espírito uma idéia viva e clara a expressará, seja em bergamasco seja por mímica, se for mudo.
Sabemos dizer: “Cícero diz assim”; “eis as regras de Platão”; “são as próprias palavras de Aristóteles”. Mas e nós, o que dizemos nós mesmos? O que pensamos? O que fazemos? Um papagaio falaria igualmente bem. Tal comportamento faz-me lembrar aquele rico romano que, com imensas despesas, tivera o cuidado de conseguir homens competentes em todo o gênero de ciências, os quais mantinha constantemente ao seu redor, para que, quando surgisse entre seus amigos alguma ocasião de falar de uma coisa ou de outra, eles suprissem seu lugar e estivessem prontos a fornecer-lhe ora um discurso, ora um verso de Homero, cada qual segundo sua seara; e ele julgava que esse saber lhe pertencia porque estava na cabeça de gente sua; assim como fazem também aqueles cuja capacidade está alojada em suas suntuosas bibliotecas.

“Conheço alguém que, quando lhe pergunto o que sabe, pede-me um livro para mostrar-mo; e não ousaria dizer-me que está com coceira no traseiro sem ir na mesma hora examinar em seu dicionário o que é coceira e o que é traseiro.”

Os Ensaios – Michel de Montaigne

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