Por que os humanos existem?

Provavelmente a tarefa mais assustadora que enfrentamos como animais parcialmente racionais com glândulas supra-renais grandes demais e lobos pré-frontais que são pequenos demais é avaliar nosso próprio peso relativo no esquema geral. Nosso lugar no universo é tão inimaginavelmente pequeno que são podemos, com nosso lamentável quinhão de matéria cinzenta, pensar nisso por muito tempo. Não é menos difícil perceber que também podemos ser muito fortuitos como presença na Terra. Podemos ter aprendido sobre nossa posição modesta na escala, sobre como prolongar nossas vidas, nos curar de doenças, aprendido a respeitar e a nos valer de outras tribos e outros animais e utilizar foguetes e satélites para facilitar as comunicações; mas então a consciência de que nossa morte está próxima e será sucedida pela morte da espécie e pela morte quente do universo é de pouco consolo. Mas pelo menos não estamos na posição daqueles humanos que morreram sem sequer terem a chance de contar sua história ou que estão morrendo hoje, neste momento, após alguns poucos minutos secos e sofridos de uma existência dolorosa e assustada.

Em 1909 foi feita uma descoberta de enorme importância nas Montanhas Rochosas Canadenses, na fronteira da Colúmbia Britânica. É conhecida como folhelho Burgess e, embora seja uma formação natural e não tenha propriedades mágicas, é quase como uma máquina do tempo ou uma chave que nos permite visitar o passado. Um passado muito remoto: essa fonte de informações calcária surgiu há 570 milhões de anos, como parte do que os paleontólogos chamam de “explosão cambriana”. Assim como houve grandes “mortes” e extinções no tempo evolucionário, também houve momentos de energia em que a vida de repente foi novamente profusa e variada. (Um “projetista” inteligente poderia ter dispensado esses episódios caóticos de explosão e contração.)

A maioria dos animais modernos sobreviventes tem sua origem nesse grandioso desabrochar cambriano , mas até 1909 éramos incapazes de vê-los em algo que fosse seu habitat original. Até então nós também tínhamos de nos basear principalmente nas provas oferecidas por ossos e conchas , ao passo que o folhelho de Burgess contém muita “anatomia mole” fossilizada, incluindo o conteúdo dos sistemas digestivos. É uma espécie de Pedra Roseta para a decodificação de formas de vida.

Nosso próprio solipsismo, freqüentemente expresso na forma de diagrama ou cartum,  normalmente representa a evolução como uma espécie de escada progressiva, com um peixe engasgando na costa do primeiro quadro , figuras curvadas e prognatas nos seguintes, e depois, em lentos graus, um homem ereto de terno acenando com o guarda-chuva e gritando “Táxi”. Mesmo aqueles que identificaram o padrão “denteado” de flutuação entre surgimento e destruição, posterior emergência e posterior destruição, e que já mapearam o final do universo, em geral concordam que há uma teimosa tendência a uma progressão para cima. Isso não é uma grande surpresa: criaturas ineficientes morrerão ou serão destruídas por aquelas mais bem-sucedidas. Mas o progresso não nega a idéia de aleatoriedade, e, quando foi estudar o folhelho de Burgess, o grande paleontologista Stephen Jay Gould chegou à conclusão mais incômoda e perturbadora de todas. Ele estudou os fósseis e seu desenvolvimento com enorme cuidado e se deu conta de que, se essa árvore pudesse ser replantada ou a sopa colocada novamente a ferver, isso muito provavelmente não reproduziria os resultados que hoje “conhecemos”.

Talvez seja bom notar que essa conclusão não foi mais agradável a Gould do que é para você ou para mim: na juventude ele tinha assimilado uma versão do marxismo, e o conceito de “progresso” era bastante real para ele. Mas ele era um acadêmico escrupuloso demais para negar provas tão claras, e, embora alguns biólogos evolucionários estejam dispostos a dizer que o progresso milimétrico e impiedoso tem uma “direção” no sentido de nossa forma de vida inteligente, Gould se afastou de sua companhia. Ele determinou que se as inúmeras evoluções do período cambriano pudessem ser gravadas e rebobinadas, e depois a fita fosse exibida novamente, não havia certeza de que tudo aconteceria da mesma forma. Vários ramos da árvore (uma analogia melhor seria com pequenos brotos em um arbusto muito denso) acabam não dando em nada, mas em um outro “começo” eles poderiam ter brotado e florescido, assim como alguns que brotaram e floresceram poderiam muito bem ter secado e morrido. Todos gostamos de que nossa natureza e nossa existência sejam baseadas no fato de sermos vertebrados. O mais antigo vertebrado conhecido (ou “cordado”) achado no folhelho de Burgess é uma criatura de cinco centímetros bastante elegante chamada, em função de uma montanha próxima e de sua beleza sinuosa, de Pikaia gracilens. Ela foi original e equivocadamente classificada como um verme (nunca se deve esquecer quão recente realmente é nosso conhecimento), mas, dados seus segmentos, os músculos e a flexibilidade do cordão dorsal, é necessariamente um ancestral que ainda assim não exige idolatria. Milhões de outras formas de vida pereceram antes que o período cambriano acabasse, mas esse pequeno protótipo sobreviveu. Citando Gould:

Rebobine a fita do tempo até a época de Burgess e a exiba novamente. Se Pikaia não sobreviver na repetição, estaremos eliminados da história futura – todos nós, do tubarão ao orangotango, passando pelo tordo. E eu não acredito que algum apostador, dado o conhecimento que temos hoje de Burgess, arriscaria muito na persistência da Pikaia.

Assim, caso você queira fazer a mais antiga das perguntas – por que os humanos existem? – ,a maior parte da resposta, no que diz respeito aos aspectos da questão que a ciência pode abordar, deve ser: porque Pikaia sobreviveu ao massacre de Burgess.

deus não é Grande – Christopher Hitchens

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