Não levarei este argumento a extremos ridículos. Até admito que, num qualquer ponto da história da evolução humana, as circunstâncias conspiraram para encorajarem a mentalidade do nosso nível atual. O cenário tradicional sustenta que a postura vertical libertou as mãos para o uso de ferramentas e armas e que o feedback das possibilidades comportamentais assim conseguido acelerou a evolução de um cérebro maior.
Creio, porém, que a maior parte de nós tem uma idéia falsa sobre a forma como evoluiu a espécie humana. Vemos a nossa ascensão como uma espécie de processo global que inclui todos os membros da linhagem humana, onde quer que tenham vivido. Reconhecemos que o Homo erectus, nosso antepassado mais próximo, foi a primeira espécie a emigrar da África e a instalar-se tanto na Europa como na Ásia (o “homem de Java” e o “homem de Pequim” dos textos antigos). Contudo, depois retrocedemos para a hipótese do ímpeto global e imaginamos que todas as populações do Homo erectus em todos os continentes subiram ao mesmo tempo a escada da mentalidade, numa onda de previsibilidade e progresso, dado o valor adaptativo da inteligência. Chamo este cenário a “teoria da tendência” da evolução humana. O Homo sapiens torna-se o resultado antecipado de uma tendência evolutiva que abarca todas as populações humanas.
Numa visão alternativa, à qual foram recentemente fornecidas bases poderosas através de reconstituições da nossa árvore evolutiva baseadas nas diferenças genéticas entre grupos modernos, o Homo sapiens surgiu como um elemento evolutivo, uma entidade definida, uma população pequena e coerente que se isolou de uma linhagem de antepassados na África. Chamo a esta visão a “teoria da entidade” da evolução humana. Esta Teoria desencadeia uma torrente de implicações: O Homo erectus asiático extinguiu-se sem deixar descendência e não faz parte dos nossos antepassados imediatos (porque surgimos a partir de populações africanas); os povos de Neanderthal eram primos colaterais, talvez habitando já a Europa enquanto nós emergíamos na África, e, portanto, também não fazem qualquer contributo à nossa herança genética imediata. Por outras palavras, somos uma entidade frágil e improvável que, felizmente, conseguiu vingar depois de um início precário, e não o resultado final previsível de uma tendência global. Somos uma coisa, um elemento da história, e não a personificação de princípios gerais.
Esta afirmação não teria muitas implicações se fôssemos uma coisa repetível – se, caso o Homo sapiens tivesse falhado e sucumbido a uma extinção inicial, como acontece à maior parte das espécies, outra população com uma inteligência superior poderia estar da mesma forma na nossa origem. Não teria o homem de Neanderthal agarrado o testemunho se tivéssemos falhado, ou não teria qualquer outra personificação do nosso tipo de mentalidade sido originada sem muita demora? Não vejo porquê. Os nossos antepassados mais diretos e os nossos primos – o Homo erectus, o homem de Neanderthal e outros – possuíam capacidades mentais de ordem superior, como indica a panóplia de ferramentas e outros artefatos encontrados. No entanto, só o Homo sapiens mostra provas diretas do tipo de raciocínio abstrato, incluindo os modos numérico e estético, que identificamos como próprios do homem. Todas as indicações de cálculo da era glaciária – os calendários gravados as lâminas de contar – pertencem ao Homo sapiens; toda a arte da era glaciária – as pinturas rupestres, as figuras de Venus, as esculturas de cabeças de cavalo, os baixos-relevos de renas – foi feita pela nossa espécie. Sabemos, por provas agora vindas a lume, que o homem de Neanderthal não conhecia a arte representativa.
Voltemos a passar o filme e deixemos que o pequeno ramo do Homo sapiens expire na África. Outros hominídeos podem ter estado no limiar daquilo que conhecemos como possibilidades humanas, mas muitos dos cenários possíveis nunca teriam gerado o nosso nível de mentalidade. Voltemos a passar o filme, morrendo desta vez o homem de Neanderthal na Europa e o Homo erectus na Ásia (como aconteceu no nosso mundo). A única linhagem humana sobrevivente, o Homo erectus na África, vacila durante uns tempos, prospera, mas não se multiplica, mantendo-se, portanto estável. Um vírus modificado varre então o Homo erectus de cena, ou uma mudança de clima reconverte a África numa selva inóspita. Um pequeno rebento do ramo dos mamíferos, uma linhagem com possibilidades interessantes que nunca chegaram a ser realizadas, se junta à maioria das espécies em extinção. E depois? A maior parte das possibilidades nunca chegam a ser realizadas, e ninguém nota a diferença.
Argumentos deste tipo levam-me a concluir que a visão biológica mais profunda da natureza, do estatuto e das potencialidades humanas reside na simples frase que personifica a contingência: O Homo sapiens é uma entidade, não uma tendência.

quinta-feira, 15 janeiro, 2009 

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