Uma vez, perto de Bir Tamade, no Sinai, um camelo idiota entrou dentro do meu campo de fogo. Avançou vagarosamente por uma colina baixa a uma distância de dois mil metros. Um pouco acima do barril que nos servia de alvo. O atirador disparou dois projéteis nele e errou. O carregador pediu licença para atirar também e falhou. Tomado pelo espírito de competição, fui até o lugar do atirador, disparei e também errei. O camelo parou e calmamente mediu o lugar onde os projéteis tinham caído. No quarto disparo arranquei sua cabeça fora. E vi pelo binóculo o jato de sangue a uma altura de um ou dois metros. O pescoço decapitado ainda se virou de um lado para o outro, como se procurasse a cabeça arrancada, depois voltou-se para trás e encharcou a corcova com o sangue, parecia um elefante regando a si mesmo com a trompa, e com uma lentidão graciosa dobrou as finas patas da frente, ajoelhou-se e deitou-se sobre o ventre, apoiou o pescoço decepado na areia e imobilizou-se na colina como um estranho monumento, que tentei em vão explodir com mais três projéteis. De repente surgiu na zona deserta um beduíno agitando os braços, mandei parar com os disparos e partir.
Novamente a brisa marítima bate no xilofone de garrafas. Paro e deixo a Hermes Baby a fim de perguntar a mim mesmo se realmente fiquei maluco. Por que estou me expondo assim ao senhor? Por que estou escrevendo uma confissão? Será um desejo mórbido de parecer ridículo? Ou, ao contrário, para receber a absolvição? Do senhor? E de modo geral, monsieur Sommo, qual o fundamento de sua confiança cega na existência da “Providência Superior”? Expiação? Recompensa e castigo? Ou a graça? De onde o senhor tirou isso? Pode me dar alguma prova? Fazer um pequeno milagre? Transformar minha bengala em serpente? Ou a sua mulher numa coluna de sal, talvez? Ou confessar que tudo é apenas estupidez. Ignorância, estreiteza de mentalidade, engano, degradação e medo.
Zakheim o descreve como um fanático astucioso, cheio de ambição, ainda que não desprovido de talentos jesuíticos e apurados instintos políticos. Na opinião de Boaz o senhor é apenas um chato de bom coração. Ilana, em seu estilo habitual, atribui ao senhor a santidade do anjo Gabriel. Ou, no mínimo, uma auréola de santo secreto. Embora, com outro estado de espírito, ela detecte no senhor um lado levantino. Também em mim o senhor conseguiu despertar uma certa curiosidade.
Mas o que é a santidade, sr. Sommo? Desperdicei cerca de nove anos da minha vida na busca inútil de uma definição razoável e mais ou menos desapaixonada. Talvez o senhor aprecie o meu esforço e concorde em me elucidar? Porque continuo sem a mínima idéia. Até a definição dos dicionários de “santidade” me parece vazia e oca, se não basicamente redundante. E ainda sinto a necessidade de conseguir decifrar algo. Mesmo que meu tempo já tenha acabado. Ou justamente por isso: santidade? Ou propósito? E graça? O que é que um lobo entende da lua para a qual ele uiva com o pescoço estendido? O que uma mariposa entende do fogo onde cai? Ou um matador de camelos a respeito de redenção? Será que o senhor pode me ajudar?
Mas nada de sermões carolas, seu hipócrita que se atreve gabar-se para mim de nunca ter derramado uma gota de sangue. De nunca ter tocado num fio de cabelo árabe. De estar redimindo a Terra Santa com suas lambidas. De expulsar todos os estrangeiros com exorcismos e milagres misturados ao meu dinheiro. De purificar o patrimônio dos antepassados, com puro óleo de oliva. O senhor trepa com minha mulher, herda a minha casa, salva o meu filho, investe a minha fortuna e ainda despeja postulados bíblicos contra minha falta de moral. O senhor me cansa. Irrita como um mosquito. O senhor não tem nada de novo para me oferecer. Há muito tempo deixei de me preocupar com gente da sua espécie e passei para tipos mais complexos. Pegue o dinheiro e caia fora da minha vista.
Quanto a mim, o que tenho para oferecer ao senhor além de minha morte próxima? Em sua carta o senhor faz votos que a “minha taça transborde” – bem, realmente ela transbordou, está quase vazia. O senhor me acusa de ter roubado “a ovelha do pobre homem” e as migalhas de sua refeição. Mas na verdade sou eu que recolho agora as migalhas de sua mesa kasher. O senhor me ameaça dizendo que “em breve enfrentarei meu destino”, mas eu já não consigo enfrentar mais nada. O senhor ouve sinos, mas os sinos estão aqui, em cima da minha cabeça. O que o senhor deseja? Comer festim dos mortos?
[…] Boaz me conta, num trejeito de lábios entre o enfado e a zombaria, que uma de suas amantes esteve aqui certa vez a serviço de um velho guru de Wisconsin que sabia, diz ela, expulsar doenças malignas com a ajuda de picadas de abelhas. E eu, para meu espanto, me diverti esta manhã enfiando a bengala dentro de uma colméia. Mas as abelhas de Boaz, distraídas e confusas como eu, ou pacíficas como ele, zumbiram ao meu redor e não se dignaram a picar. Talvez o cheiro da morte que emana de mim as repugne. Ou elas não tem interesse em curar gente de pouca fé.
Portanto, sem perceber, aqui está outra vez a minha antiga obsessão: transformar cada abelha desgarrada em portadora de uma questão teológica, apenas para enfurecer-me com ela com um ranger de dentes e esmagá-la, junto com sua questão. E me apressarei a explodir a nova questão com um tiro certeiro. Durante nove anos lutei com Maquiavel, desmontei Hobbes e Locke, desfiz todas as costuras de Marx, ardendo com o desejo de provar de uma vez por todas que não são o egoísmo, nem a baixeza ou a crueldade da nossa natureza que nos transformam numa espécie que destrói a si própria. Nós aniquilamos a nós próprios (e breve exterminaremos todos os da nossa espécie) justamente devido aos nossos “anseios superiores”, devido à doença religiosa. Por causa da necessidade ardente de “ser redimido”. Devido à obsessão pela redenção? Apenas uma máscara que esconde a ausência absoluta de talento básico para a vida. É o talento que todo gato possui. Quanto a nós, como as baleias que se atiram contra a praia num impulso coletivo, sofremos de uma avançada degeneração do talento para a vida. Daí a vontade popular de destruir e exterminar o que temos, para abrir caminho até regiões de redenção que jamais existiram e não são sequer possíveis. Sacrificar alegremente nossas vidas, exterminar em êxtase o próximo, em proveito de algo falsamente mágico que nos parece uma “Terra Prometida”. Um tipo de miragem considerada “superior a vida”. E o que, na Terra, não é considerado superior à própria vida? Na cidade de Upsala, no século XIV, dois monges mataram numa única noite noventa e oito ófãos, depois puseram fogo em si próprios, tudo porque uma raposa azul tinha aparecido na janela do mosteiro para anunciar que a Virgem esperava por eles. Por isso: revestir sempre e sempre a face da Terra “com o tapete de nossos crânios partidos/ como rosas brancas”, um tapete destinado a receber os passos puros de algum salvador rejeitado (poema de um fanático local, que por certo foi bem sucedido em conseguir um belo espalhar de miolos com as vinte balas que os britânicos lhe meteram na cabeça). Ou uma variante local: “Porque tranqüilidade é lama/ renuncie ao sangue e à alma/ pelo esplendor oculto”. Que esplendor oculto, sr. Sommo? Será que o senhor enlouqueceu? Dê uma olhada em sua filha de vez em quando: esse é todo o esplendor oculto. Não há outro. É uma vergonha gastar minhas palavras com o senhor. O senhor a matará. Assassinará tudo o que move à sua volta. E chamará a isso de “as dores da vinda do Messias” e dirá que é a aceitação do julgamento divino. O senhor pode até me vencer, e conseguirá matar sem derramar uma gota de sangue. Ferverá em óleo de oliva e murmurará três vezes “sagrado”.

domingo, 22 fevereiro, 2009 

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