Denshichiro tinha reputação de homem fortíssimo e era, afinal de contas, um dos irmãos Kenpo. Ele carregava uma espada de madeira de mais de um metro e meio de comprimento, afiada na extremidade, uma arma que exigia força considerável para ser manuseada, sem mencionar a habilidade necessária. A luta deveria ser realizada num lugar fora da capital, e o horário foi marcado. Este viria a ser um combate extremamente breve. Musashi, depois de estudar o caráter dos Yoshioka e avaliar o temperamento de Denshichiro, mais uma vez chegou atrasado, provocando o efeito que desejava. Quando Denshichiro desferiu um ataque agressivo e raivoso, Musashi se esquivou do golpe, arrancou a espada do seu adversário e perfurou seu corpo. Segundo inúmeros registros, “Denshichiro caiu ali mesmo e morreu.”
O combate acabou em questão de segundos, e os espantados discípulos, que tinham vindo ver seu mestre acabar com o novato Musashi, nada puderam fazer senão carregar o corpo de Denshichiro de volta a Kyoto. A quarta geração de Yoshioka Kenpo chegara a um fim devastador.
Não é difícil imaginar o que ocorreu em seguida. Casos de vingança, ou adauchi, sempre tiveram um lugar importante na história do Japão, o que não surpreende, levando em conta o papel crucial desempenhado pela honra na cultura japonesa tradicional.
Independentemente do estrago feito à honra de alguém ter sido flagrante ou sutil, espera-se que a parte desfavorecida buscasse vingança. E numa sociedade em que as notícias se espalhavam como ondas em torno de uma pedra atirada num lago, não havia escapatória: a parte desonrada estava absolutamente fadada a agir. Omitir-se nessa hora significava perpétua desgraça.
Foi nessa situação que se encontravam os remanescentes do clã Yoshioka, seus discípulos e alunos: tinham a obrigação incontestável de agir, não importa as trágicas conseqüências que poderiam advir.
E assim, mais um combate foi organizado com Musashi, desta vez contra o filho de Seijuro, Matashichiro, membro da quinta geração Kenpo. Mas o combate era apenas um ardil – um fato que deve ter sido do conhecimento de todos, inclusive de Musashi. Mataschichiro era somente um símbolo da honra do clã. Na verdade, o que se havia planejado era uma batalha.
O local escolhido foi novamente a periferia de Kyoto, no famoso campo de pinheiros no templo Ichijoji. Para se certificar de que não havia chances de sofrer outra derrota, o clã Yoshioka trouxe mais de uma centena de homens, fortemente armados, de espadas e lanças a arcos e flechas.
Nesse intervalo de tempo, a reputação de Musashi havia crescido imensamente e ele reunira alguns ávidos alunos à sua volta. Um pouco antes da luta, um grupo desses alunos descobriu os planos da família Yoshioka, avisou o professor e se ofereceu para acompanhá-lo até o combate. Musashi, contudo, sabia que envolver alunos numa adauchi seria considerado o mesmo que recrutá-los para uma batalha, algo estritamente proibido pelas autoridades. O clã Yoshioka estava praticamente acabado e assim, para eles, não havia outro recurso. Mas Musashi tinha toda a vida pela frente e conseguira, de algum modo, conquistar confiança e força interior muito superior às de um homem comum. Seus alunos foram proibidos de acompanhá-lo na direção da armadilha preparada pelos Yoshioka.
No começo daquele ano, quando lutara com Seijuro e Denshichiro, Musashi deixara seus oponentes em desvantagem psicológica, fazendo-os esperar e assim perder seu equilíbrio mental. Desta vez, ele inverteu a estratégia e chegou bem cedo. No caminho, passou por um santuário em homenagem a Hachiman, o deus da guerra, e parou um instante para orar pela vitória. Mas quando se dirigiu ao altar, pronto para puxar a corda que faria soar o gongo invocando a atenção divina, ele repentinamente se deu conta de que, em ocasiões normais, nunca tivera fé em deuses e budas. Seria errado agir, então, daquela maneira. Envergonhado, soltou a corda e recuou. Por que os deuses iriam ouvi-lo naquele momento, se nunca havia confiado neles antes? Banhado de suor com aquele constrangimento se curvou diante do altar em agradecimento pela revelação e se apressou.
O incidente causou profunda impressão em Musashi e quando escreveu O livro dos cinco elementos, quase quarenta anos mais tarde, deixou bem claro que os princípios de espadachim devem ser entendidos como se o próprio aluno os tivesse descoberto. Tratava-se de uma importante divergência em relação aos demais estilos de esgrima daquele tempo. Do grande número de estilos que surgiram em meados do século XVI, muitos de seus precursores costumavam dizer que os haviam aprendido não por conta própria, mas através de revelações divinas. Tsukahara Bokuden, do Shinto-ryu, por exemplo, recebeu uma “sentença divina” no santuário de Kashima; o estilo de Ito Ittosai, fundador de Itto-ryu, revelou-se depois de sete dias e sete noites de isolamento no Grande Santuário de Mishima. A lista não pára aí: os olhos de Okuyama Kyugasai, do Shinkage-ryu, foram abertos pela deidade graciosa de Mikawa Okuyama; Jion, do Nen-ryu, conheceu os segredos de seus estilos durante uma iluminação que teve no templo Kurama, em Kyoto; Hayashizaki Jinsuke, fundador do iai-do, descobriu seu novo caminho no santuário de Dewa Tateoka Hayashizaki; e os princípios do Shindo Munen-ryu foram revelados a Fukui Hei’emon através de Izuna Gogen, em Shinshu.
Musashi se curvou em respeito aos deuses e chegou mesmo a venerar os budistas bodhisattvas, porém o pragmático espadachim tinha pouca paciência com revelações e segredos. Sentia que isso nada mais era do que obstáculos para a autoconfiança. Anos depois, à beira da morte, ele escreveu em “O caminho do andarilho solitário”, o derradeiro testamento deixado para seus discípulos, que era necessário “respeitar os deuses e budas, mas não contar com eles”.
Musashi seguiu andando e estudando a topografia do caminho: a bifurcação na estrada que passava pelo trecho norte do rio Shirakawa, os arrozais com pequenos atalhos entre eles e mesmo os montes Ichijoji e Uryu, atrás da estrada. Ao alvorecer, ele já estava esperando os Yoshioka no campo de pinheiros.
Naquele instante, Matashichiro e sua “tropa” chegaram ao local combinado, carregando lampiões e sussurrando que o adversário provavelmente se atrasaria de novo. De repente, Musashi saltou de trás de um pinheiro e gritou: “Deixei vocês esperando?”
Novamente, sua tática psicológica funcionou à perfeição. Os Yoshioka ficaram confusos e, ainda incapazes de enxergar bem na penumbra da madrugada, sem dúvida todos eles sentiram medo de que Musashi estivesse bem atrás deles. Por sua vez, Musashi investiu contra o grupo de homens que procuravam suas espadas. Encontrou o amedrontado Matashichiro, cortando-o ao meio. Os alunos, chocados, desferiam golpes estabanados, arremessavam suas lanças e disparavam suas flechas em completa desordem. Aproveitando-se do pânico generalizado, Musashi agrupou os homens assustados como um rebanho, derrubando-os um a um até finalmente se retirar usando a rota que planejara antes.
Foi um grande aniquilamento. Os homens do clã Yoshioka que de algum modo escaparam com vida voltaram correndo para a capital, com uma tal desonra que não havia recuperação possível. A última linhagem Yoshioka fora destruída nos primeiros momentos da batalha, e um único espadachim conseguira exterminar um estilo de esgrima celebrado durante gerações. Apesar de uma flecha ter rasgado sua roupa, Musashi não sofreu sequer um ferimento.
O Samurai, a vida de Miyamoto Musashi – William Scott Wilson

domingo, 22 março, 2009 


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