A miséria e a glória do auto-engano

Os limites da racionalidade fria e o valor positivo do auto-engano aparecem  também com clareza em situações agudas de adversidade. O dom de mentir com sucesso para si mesmo pode ajudar a manter a chama da vida acesa nos momentos em que a sobrevivência está por um fio. O doente grave ou terminal que entrega os pontos e se rende por completo à probabilidade avassaladora da morte iminente está praticamente morto. Mas o doente que, apesar de toda a evidência em contrário, sustenta no íntimo de sua alma a convicção cega, firme e inabalável de que vai conseguir vencer o mal parece aumentar as suas chances objetivas de recuperação.

O relato pungente do químico e escritor italiano Primo Levi, sobre a sua experiência como prisioneiro de guerra dos nazistas no ambiente infernal e absurdamente degradante de Auschwitz, ressalta o valor de sobrevivência da cegueira protetora associada a certos tipos de crença não racional:

Os não-agnósticos, os que mantinham alguma forma de crença, qualquer que ela fosse […] suportavam melhor as provas do campo de concentração e sobreviveram em maior número […] Não importava que fé religiosa ou política fosse. Padres católicos ou reformados, rabinos de várias ortodoxias, sionistas militantes, marxistas ingênuos ou sofisticados e testemunhas de Jeová – todos eles tinham em comum a força salvadora da fé que possuíam. O seu universo era mais vasto que o nosso, mais extenso no espaço e no tempo e, acima de tudo, mais inteligível […] Alguns, nos intervalos dos trabalhos [forçados], tentavam nos catequizar. Mas como se pode, sendo leigo, fabricar para si mesmo ou aceitar de repente uma fé “oportuna” só porque ela é oportuna?

A mobilização radical dos recursos de sobrevivência dos organismos em situações de extrema adversidade ajuda a entender a quase total ausência de episódios de suicídio nos campos de concentração. Enquanto se luta desesperadamente, a cada hora do dia, para preservar as condições mínimas de sobrevivência biológica, não há espaço para o “luxo” de uma depressão. Foi apenas após a libertação, quando os ex-prisioneiros puderam afinal respirar, olhar para trás e refletir sobre os horrores e humilhações que suportaram nos campos, que muitos deles entraram em estado depressivo crônico. Foi só a partir desse momento que, paradoxalmente, um grande número de sobreviventes dos campos sucumbiu ao suicídio.

A morte é a fronteira da liberdade. Ela não é o alvo da vida, mas o seu ponto final. Morrer nos priva de um universo de possibilidades à nossa frente: tudo o que ainda poderia ser, mas não mais será. A perda, porém, acompanha-nos desde o início da caminhada: tudo o que poderia ter sido, mas não foi. Viver é fazer escolhas – é apostar em certo trecho de um caminho ignorado e privar-se de todas as alternativas que vão sendo eliminadas à medida que prosseguimos. O homem que adormece como um cão tolerado pela gerência é um exemplo agudo de como a perda decorrente dos descaminhos e escolhas equivocadas de uma vida pode superar largamente a perda final que a morte representa. “O mundo sempre foi assim ou agora se tornou somente para mim tão triste?” Não é preciso morrer para perder a vida.

Mas enquanto há vida nem tudo está perdido. A hora mais negra é a que precede a manhã. O arrependimento e o remorso por uma vida errada são o luto por um passado não vivido. A depressão temporária é condição de crescimento espiritual – é a hibernação da vida que se recolhe e se prepara para voltar renovada, promessa de porvir. Do ponto extremo da dor, como num parto, rompe a alegria indescritível, a inundação do amor. “Eis que um segundo nascimento, não adivinhado, sem anúncio, resgata o sofrimento do primeiro, e o tempo se redoura.” Da morte em vida renasce a vida, como a giesta, flor das cinzas frias do Vesúvio. Se o animal humano expulso do paraíso foi punido com a consciência da morte e a vergonha de ser quem é, ele recebeu também da natureza o dom de uma esperança selvagem e inexplicável: a cegueira salvadora e iluminada que nos protege de pensar e de viver plenamente o peso absurdo dos nossos erros e a certeza do nosso fim. Alegria sem razão de viver.

Auto-engano – Eduardo Giannetti
Companhia de Bolso
ISBN 8535907424

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