Liberdade para poucos


Antes da Batalha de Shrewsbury, Falstaff, provavelmente, o soldado mais velho e, sem dúvida, o mais pesado que haveria de arriscar a vida no confronto, afirma, de maneira sensata e comovente: “Desejara, Hal, que fosse hora de deitar e que tudo estivesse bem”. O Príncipe retruca, implacavelmente: “Ora deves uma morte a Deus”, e sai de cena. Ainda sou capaz de ouvir a reação de Ralph Richardson, como Falstaff, diante da agressividade de Hal:

A letra ainda não está vencida, repugna-me pagá-la antes do termo. Que necessidade tenho eu de ir ao encontro de quem não me chama? Bem, não importa: é a honra que me incita a avançar. Sim, mas, se a honra me levar para o outro mundo, quando eu estiver avançando? E então? Pode a honra encanar uma  perna? Não. Ou um braço? Não. Ou suprimir a dor de uma ferida? Não. Nesse caso, a honra não entende de cirurgia? Não. Que é honra? Uma palavra. Que há nessa palavra, honra? Vento, apenas. Bela apreciação! Quem a possui? O que morreu na quarta-feira. Pode ele senti-la? Não. Ou ouvi-la? Não. Trata-se, então, de algo insensível? Sim, para os mortos. E não poderá ela viver com os vivos? Não. Por quê? Opõe-se a isso a maledicência. Logo, não quero saber dela: a honra não passa de um escudo de porta de casa de defunto. E aqui termina o meu catecismo.

Pode haver público que não aprenda aqui uma lição, em qualquer sociedade que ainda alimente ilusões de militarismo? Haveria alguma sociedade, passada ou presente, que a tal não e prestasse? Falstaff, conforme o faz seu relutante admirador, Samuel Johnson, insta-nos a livrarmos nossas mentes de lamúrias, sendo que Falstaff é ainda mais imune às ilusões impostas pela sociedade de que Johnson. Shakespeare, pelo que podemos deduzir de sua vida e obra, tinha pavor à violência, inclusive à violência organizada que é a guerra. Henrique V não chega a fazer apologia da batalha; a questão é tratada com uma ironia sutil, porém perceptível. ‘Honra’ é conceito que pertence à esfera de Hotspur, e de Hal, que mata Hotspur. Partindo para a batalha, Hotspur brada:

“[…] o último dia / já está perto; morramos com alegria”, enquanto Falstaff, no campo de luta, diz, “Dêem-me vida”.

Shakespeare confere a Sir John tamanha vitalidade que acaba por ter dificuldade (chegando mesmo a relutar) diante da idéia de dar um fim ao ‘cavaleiro avantajado’ – que, a Shakespeare, não devia a morte. Shakespeare é que devia a Falstaff, por dois motivos: pela emancipação definitiva com respeito a Marlowe e por haver Falstaff feito dele o mais bem-sucedido dramaturgo elisabetano, ofuscando, portanto, Marlowe, Kyd e todos os rivais, inclusive Ben Jonson. Ralph Richardson, há meio século, percebeu, claramente, que Falstaff possuía uma presença de espírito extraordinária, e que era capaz de superar qualquer desafiante, até o terrível momento em que é rejeitado por Hal. Aos sessenta e sete anos, lembro-me, perfeitamente, da minha reação, aos dezesseis, quando o Falstaff representado por Richardson despertou-me para uma primeira compreensão de Shakespeare. A atuação de Richardson continha a essência da arte dramática, em todos os sentidos, e o Falstaff por ele encenado (tivesse ele, ou não, conhecimento do fato) era o Falstaff vislumbrado por A. C. Bradley, estudioso, hoje em dia, absurdamente, depreciado, mas que continua a ser o melhor crítico de Shakespeare desde Willian Hazlitt:

A glória da liberdade obtida através do humor é a essência de Falstaff. Seu humor não é dirigido apenas, ou principalmente, ao absurdo óbvio; Falstaff é inimigo de tudo que interfere com o seu conforto, portanto, de tudo que é sério, em particular, daquilo que é respeitável e moral. Tudo isso nos impõe limites e obrigações e nos faz súditos da lei, do imperativo categórico, de nosso status e nossos deveres, da consciência, da reputação, da opinião de terceiros e de tantas outras bobagens. Digo que Falstaff é inimigo de tudo isso, mas, ao dizê-lo, não lhe faço justiça; afirmar que Falstaff se opõe a tais questões implica a idéia de que as leva a sério, que lhes reconhece a força, quando, na verdade, sequer se dá conta de sua existência. São, para ele, questões absurdas, e reduzir algo ad absurdum é reduzi-lo a nada, e sair a andar por aí lépido e faceiro. É isso que Falstaff faz (às vezes, por meio de palavras, outras, por meio de palavras e atos) com tudo na vida que tem pretensão à seriedade. Falstaff faz a verdade parecer absurda, através de pronunciamentos solenes, ditos com ar solene, nos quais ele não espera que pessoa alguma acredite. Faz o mesmo com a honra, demonstrando-a incapaz de encanar uma perna, e que nem os vivos nem os mortos podem possuí-la; igualmente, faz a lei parecer absurda, pois consegue esquivar-se dos ataques do seu mais alto representante e quase o obriga a rir da própria derrota; e o patriotismo, ao encher os bolsos com suborno oferecido por soldados aptos que desejam escapar do serviço militar, enquanto alista mancos, mutilados e criminosos; e o dever, desempenhando tão bem a sua vocação – de ladrão; e a coragem, seja zombando de ter capturado Coleville, seja afirmando ter morto Hotspur; e a guerra, ao oferecer ao Príncipe a garrafa de xerez, quando este lhe pede a espada; e a religião, ao se entreter com a idéia de remorso quando se sente entediado; e o temor da morte, ao preservar, mesmo diante do perigo iminente, e mesmo quando sente medo de morrer, a capacidade de dissolver o medo na chacota de sempre, no conforto da taverna. São esses os grandes feitos que Falstaff realiza, não com o azedume de um cínico, mas com a alegria de um menino. Portanto, será por nós elogiado, louvado, pois só ofende os poderosos, nega que a vida é real ou séria e livra-nos da opressão desses pesadelos, elevando-nos a uma atmosfera de liberdade total.

Lembro-me de ter lido esse grandioso parágrafo de Bradley poucos meses depois de ter visto Richardson como Falstaff, e do impacto que me causou a constatação da proximidade que havia entre a interpretação do crítico e a do ator. O Falstaff contemplado por Bradley não é idealizado; o crítico sabe muito bem que não estaria a salvo em companhia de Falstaff. Mas sabe, também, que Falstaff nos ensina a não sermos moralistas. A tardia defesa da coragem e da honra feita por Hal é um tanto moralista, assim como a apologia feita pelo Lorde Grande Juiz; Faltaff quer brincar como criança (no sentido de ingenuidade, não de tolice), algo que está além da ordem moral. Conforme diz Bradley, Falstaff recusa-se a reconhecer as instituições sociais da realidade; não é imoral nem amoral, mas pertence a uma outra ordem, à ordem do lúdico. Hal foi admitido à referida ordem como discípulo de Falstaff, nela permanecendo mais tempo do que teria pretendido. A despeito de um sentimento de ambivalência, supostamente, alimentado ao longo de toda a Primeira Parte de Henrique IV, Hal tenta resistir ao fascínio do grande companheiro. Parece justo registrar que Falstaff cativa o relutante Príncipe pelas mesmas razões que domina qualquer platéia (desde que o papel seja bem desempenhado).

Shakespeare: a invenção do humano – Harold Bloom

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