A Crueldade tem um Coração Humano,
e o Ciúme uma Figura Humana;
O Terror tem a Divina Forma Humana;
E o Mistério tem as Vestes do Homem.
A Veste do Homem é o Ferro que se forja,
A Forma humana, uma Forja de chama,
A Figura humana, uma Fornalha fechada,
O Coração Humano, a sua Goela faminta.
A iniciativa para matar, a devoção ao apelo nazista, pode ser igualada, ou talvez suplantada, pela crueldade com que os perpetradores tratavam suas vítimas. Uma crueldade constante e generalizada marcou o tratamento que os alemães infligiram aos judeus, especialmente nos campos e guetos. Os alemães foram cruéis não apenas por terem encarcerado os judeus dentro de instalações miseráveis, sob um regime cruel, arquitetado para causar dor e sofrimento, e mais tarde matá-los das formas mais repugnantes. Sua crueldade foi também direta e imediata. Utilizando chicotes e cassetetes, sempre presentes, ou com suas próprias mãos e botas, eles castigaram os judeus, laceraram sua carne, jogaram-nos ao chão e os forçaram a executar atos bizarros e degradantes. É emblemático o ocorrido em Bialystok, quando um membro do batalhão Policial 309 decidiu urinar num judeu em público, na presença de um general alemão. Para esse alemão comum, os judeus eram um excremento a ser tratado apropriadamente. Um dos médicos alemães em Auschwitz, Heinz Thilo, descreveu o campo como “anus mundi”, o ânus do mundo, o orifício através do qual os alemães estavam eliminando o excremento sócio-biológico da humanidade: os judeus.
“A crueldade tem um coração humano”, assim começa um dos mais notáveis poemas de William Blake. Os registros da história humana estão repletos de crueldades em grande escala, sancionadas e organizadas. Caçadores e senhores de escravos, regimes tirânicos, predadores coloniais, inquisidores eclesiásticos e interrogadores policiais tem torturado e atormentado com o objetivo de manter e aumentar seu poder, a fim de acumular riquezas ou extrair confissões. Contudo, nesses extensos anais da barbárie humana, as crueldades praticadas pelos alemães contra os judeus durante o período nazista se destacam por seu escopo, variedade, criatividade e, sobretudo, por sua libertinagem. Orlando Patterson, em seu magistral trabalho Escravidão e morte social, discute 58 sociedades escravocratas estudadas por ele em profundidade. Em aproximadamente 80% delas, os senhores em geral tratavam bem os escravos. Nos restantes 20%, tratavam “mal ou com brutalidade”. Também consta no estudo que em 29% dessas sociedades não existiam sanções legais contra os senhores. Mesmo assim, eles tratavam bem seus escravos. Ao que parece, mesmo nas minoritárias sociedades em que os senhores agiam com brutalidade em relação a seus escravos, o tratamento raramente teve a constância, a variedade e a inventividade da brutalidade predominante nos campos e guetos germânicos. O Universo de morte e tormento dentro do qual os alemães encarceraram os judeus poderia encontrar sua imagem similar mais próxima nos retratos do inferno contidos nos ensinamentos religiosos e na arte produzida por Dante ou Hieronymus Bosch. “Em comparação” às cenas que presenciou em Auschwitz, escreveu um dos médicos alemães do campo, Johann Paul Kremer, o “Inferno de Dante me parece quase uma comédia.”
[…] A crueldade demonstrava a todos os alemães que seus concidadãos tratavam os judeus da forma como o faziam não devido a uma necessidade militar, não pelo fato de civis alemães estarem morrendo em ataques aéreos (a crueldade sistemática, praticada em boa parte da matança genocida, precedeu os devastadores ataques aéreos), não por qualquer justificativa tradicional para a matança de um inimigo, mas em conseqüência de um quadro de crenças que definia os judeus de maneira a demandar sofrimentos e vingança, um quadro de crenças composto por um ódio tão profundo quanto um povo jamais sentiu por um outro.

segunda-feira, 1 junho, 2009 

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