Da morte

“Lançai-vos à experiência dos males que vos podem ocorrer, sobretudo dos mais extremos; ponde-vos à prova assim, ganhai segurança assim”, dizem. Ao contrário, o mais fácil e mais natural seria livrar deles até mesmo o pensamento. Eles não chegarão cedo o bastante, sua existência real não durará o bastante para nós; é preciso que nosso espírito os amplie e alongue e que antecipadamente os incorpore em si e se alimente deles, como se não pesassem adequadamente para nossos sentidos. “Eles pesarão o bastante quando aqui estiverem, diz um dos mestres, não de alguma seita branda e sim da mais dura (o estóico Sêneca). Enquanto isso, sê favorável a ti mesmo; confia-te ao que mais aprecias. De que te serve irdes acolhendo e prevendo tua má fortuna e perderes o presente por medo do futuro, e seres infeliz agora por que deves sê-lo daqui a algum tempo?” São essas suas palavras. A ciência sem dúvida nos presta um bom serviço ao instruir-nos com muita exatidão sobre a dimensão dos males, “aguçando por meio de cuidados o espírito dos mortais” (Públio Virgílio Marão, 70-19 AC). Seria lamentável se parte da amplitude deles escapasse à nossa percepção de conhecimento.

É certeza que para a maioria a preparação para a morte causou mais tormento do que o fez seu sofrimento (a morte, o fato de sofrê-la). Foi legitimamente dito outrora, e por um autor muito judicioso: “Nossos sentidos são menos afetados pela provação real do que pela imaginação.” (Marcus Fabius Quintilianus, 40-95 DC)

Às vezes a percepção da morte presente anima-nos por si mesma com uma pronta resolução de não mais evitar algo totalmente inevitável. No tempo antigo viram-se vários gladiadores, depois de combater covardemente, engolirem corajosamente a morte, oferecendo a garganta ao ferro do inimigo e incitando-o. A visão da morte por vir necessita de uma firmeza duradoura e conseqüentemente difícil de obter. Se não sabeis morrer, não vos preocupeis; a natureza ensinar-vos-á no momento certo, plena e eficientemente; ela fará esse trabalho por vós com precisão; não entraveis com isso vosso cuidado.

“Em vão, mortais, procurais saber a incerta hora de vossa morte e o caminho por onde ela virá.” (Sextus Propertius Propércio, 43-17 AC)

“É menos penoso suportar um infortúnio súbito e definido do que sofrer longamente o suplício do temor.” (Maximianus Herculius, 250-310 DC)

Os Ensaios – Michel de Montaigne

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