Começo, meio e fim

Estamos passeando, a lua acaba de surgir, estamos ociosos, disponíveis, um pouco vazios. E de repente pensamos: “Algo aconteceu.” Seja o que for: um estalido nas sombras, um vulto rápido que atravessava a rua. Mas esse acontecimento diminuto não é igual aos outros: percebemos imediatamente que ele antecede uma grande forma cujo desenho se perde na bruma e nos dizemos também: “Alguma coisa está começando.”

Alguma coisa começa para terminar: a aventura não se deixa prolongar; só tem sentido através de sua morte. Para essa morte, que será talvez também a minha, sou arrastado inexoravelmente. Cada instante só surge para trazer os que se lhe seguem. Apego-me a cada instante com todo o meu coração: sei que é único; insubstituível – e no entanto não faria um gesto para impedi-lo de se aniquilar. Esse último minuto que passo – em Berlim, em Londres – nos braços de uma mulher que conheci na antevéspera – minuto que amo apaixonadamente, mulher que estou perto de amar – vai terminar, eu sei. Dentro em pouco partirei para outro país. Não tornarei a encontrar essa mulher, nem essa noite, nunca mais. Debruço-me sobre cada segundo, tento esgotá-lo; nada se passa que eu não capte, que não fixe para sempre em mim, nada, nem a ternura fugaz desses belos olhos, nem os ruídos da rua, nem a claridade titubeante do amanhecer: e no entanto o minuto se esgota e não o retenho, gosto que passe.

A Náusea – Jean-Paul Sartre
Editora Nova Fronteira
ISBN 8520917313

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