Depois de breve passagem pelas ilhas Canárias e pelo arquipélago de Cabo Verde, ambos ao largo da África, o Beagle aportou primeiro em Salvador da Bahia, rumando em seguida para o Rio de Janeiro, onde permaneceria por três meses, até 5 de julho de 1832. A leitura do relato de viagem escrito por Darwin, A Viagem do Beagle, que se converteria num grande sucesso quando de sua edição em 1839, revela que o Brasil – em que pese toda a sua exuberância tropical de espécies (o que hoje chamaríamos biodiversidade) – terminou por fornecer pouca matéria prima para Darwin no processo de desenvolver sua teoria da evolução. Muito provavelmente isso se deve ao fato de o jovem naturalista se encontrar, à época, numa fase, por assim dizer, de aquecimento como pesquisador sistemático, mas tanto a natureza como a sociedade brasileira de então deixariam impressões profundas em Darwin.
Disciplina e método foram seus maiores aliados durante a viagem. Darwin coletava de tudo: pássaros, répteis, mamíferos, insetos, fósseis, rochas e plantas, que ele mesmo preparava ou empalhava ao final do dia para remessa posterior a Henslow. Fazia ainda dissecações e estudos ao microscópio que trazia consigo. Preenchia metodicamente um diário, que depois serviria de base para escrever o famoso relato, mas não se limitava a anotar detalhes sobre os espécimes – ao contrário, colecionou também uma enorme quantidade de observações e reflexões sobre os ecossistemas visitados e a população dos lugares por que passou, com minúcia quase antropológica. Entre os 74 homens da tripulação do Beagle, ficou conhecido como “Philos”, o filósofo de bordo, e como “Flycatcher”, o apanhador de moscas.
“Durante parte do dia eu redigia meu diário e fazia um grade esforço para descrever tudo que via, de maneira criteriosa e vívida; isso constitui um bom hábito”, conta Darwin. “No entanto, os vários estudos […] não tiveram importância alguma, comparados ao hábito, que adquiri nessa época, de aplicar uma industriosidade vigorosa e uma atenção concentrada em tudo aquilo em que eu tivesse empenhado. Tudo o que pensava ou lia era diretamente relacionado com o que eu tinha visto e tinha probabilidade de ver. Mantive esse hábito mental durante os cinco anos da viagem. Essa formação me permitiu fazer o que fiz na ciência.”
Darwin – Marcelo Leite
Publifolha
ISBN 9788579140211

quinta-feira, 25 junho, 2009 

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