Desejo, sonho e realidade

Juventude é um negócio ilusório. Na juventude a vida parece um animal manso, que se estende a seus pés e se satisfaz com alguns agrados miseráveis para ser fiel para sempre.

Com catorze anos tive um sonho. Andava por uma rua no meu vilarejo e percebi que as pessoas se agitavam muito assim que passava por elas. Acenavam simpaticamente com as mãos e também com a cabeça, bondosamente e com admiração. Depois se reuniam e falavam, e era sobre mim. Alguma coisa estava acontecendo comigo, mas eu não sabia o quê. Fiquei curiosa e corri para casa. Minha mãe sempre sabia de tudo.

A porta da cozinha está aberta e minha mãe está à minha frente, ladeada pelos meus irmãos. Ela olha para mim e junta as mãos. Pergunta, espantada, se eu ainda não sei. Não, não, não sei de nada.

Há menos de uma hora tinha sido anunciado no rádio: eu tinha ganho o prêmio Nobel. Impossível. Eu ainda não tinha publicado uma letra sequer. – Eles sabem que você é uma escritora – diz minha mãe –, e não faz outra coisa o dia inteiro. Estão lhe dando o prêmio por antecipação, porque sabem que o trabalho é bom.

Veja, é isso que eu quero dizer. Eis o que chamo de ilusão da juventude. Quando se é jovem, simplesmente não dá para imaginar que você mesmo precisará lutar por aquilo que quer ter ou quer ser. Você acha que basta querer algo intensamente. Na juventude tudo simplesmente acontece, e você aceita da maneira como vem, o bom o e o mau. Certo dia você se dá conta, de uma maneira meio chocante, de que o desejo é uma condição, mas insuficiente para a vida que quer levar. O desejo tende a passar por cima de alguma coisa, e então vira sonho. Ele enfoca as conseqüências e as circunstâncias casuais sem importância daquilo que você pode ser. Sendo assim, quase ninguém considera como profissão ser astro de cinema, mas todos gostariam de sê-lo. Esse desejo, porém, não enfoca o trabalho, o calor das luzes, os outros atores acanhados e espírito, a inveja e o tédio no ambiente: o que se ambiciona é a admiração que os astros provocam, uma admiração como a que eles próprios sentem quando vêm alguém na tela. Portanto, o que desejam mais ainda é eles próprios serem alguém que as pessoas desejam, na mesma intensidade com que eles próprios desejam um ídolo. Ninguém gosta de se confrontar com a realidade das estrelas. A juventude termina quando nos damos conta da necessidade e da beleza do trabalho, da realidade de trabalho, sem levar em consideração os resultados finais, se isso for necessário, mas de preferência levando-nos em consideração. Resumindo, você precisa escrever livros se deseja tanto ser escritor.

As Leis – Connie Palmen
Editora 34
ISBN 8573260734

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