Ezequiel convocou os quatro ventos para insuflar o sopro da vida nos ossos secos. Qual é o ingrediente vital que um planeta sem vida como a Terra em seus primórdios precisa possuir para que lhe seja dada a chance de abrigar a vida, como ocorreu com o nosso planeta? Não é um sopro, nem o vento, nem algum tipo de elixir ou porção. Não é substância nenhuma, e sim uma propriedade, a propriedade da auto-replicação. Esse é o ingrediente básico da seleção cumulativa.
[…] Existem pessoas no mundo que desejam desesperadamente não ter de acreditar no darwinismo. Parecem enquadrar-se em três classes principais. Na primeira estão aquelas que, por razões religiosas, querem que a própria evolução não seja verdade. Na segunda, aquelas que não têm razão para negar que a evolução ocorreu mas, por motivos políticos ou ideológicos, têm aversão ao mecanismo da teoria de Darwin. Destas, algumas acham a idéia da seleção natural inaceitavelmente dura e implacável; outras confundem seleção natural com aleatoriedade, e portanto “ausência de sentido”, e se sentem ofendidas em sua dignidade; outras ainda confundem o darwinismo com darwinismo social, que tem conotações racistas e outras conotações desagradáveis. Na terceira classe, que inclui muitos do que trabalham no que denominam “mídia”, estão as pessoas que simplesmente gostariam de entornar o caldo, talvez porque isso produza bom material jornalístico, e o darwinismo tornou-se suficientemente bem estabelecido e respeitável para ser um caldo deveras tentador.
O relojoeiro cego – Richard Dawkins
Companhia das Letras
ISBN 8535901612

quarta-feira, 1 julho, 2009 

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