Ao deitar-se, encontrou lençóis de tecido grosseiro. Percebeu a situação. “Ah, estou no calabouço”, pensou, “como condenado à morte. É justo.”
O conde Altamira me contou que, na véspera de sua morte, Danton dizia com seu vozeirão: ‘é estranho, o verbo guilhotinar não pode ser conjugado em todos os tempos; pode-se dizer: eu serei guilhotinado, tu serás guilhotinado, mas não se diz eu fui guilhotinado’.
“Por que não”, continuou Julien, “se há uma outra vida? Ora, se encontrar o Deus dos cristãos, estou perdido: é um déspota e, como tal, repleto de idéias de vingança; sua Bíblia só fala de punições atrozes. Nunca o amei; nem mesmo quis acreditar que o amassem sinceramente. Ele não tem piedade (e lembrou-se de várias passagens da Bíblia). Ele me puniria de maneira abominável…
[…] “Um caçador dá um tiro numa floresta, sua presa cai, ele se lança para apanhá-la. Pisa, sem querer, num formigueiro de dois pés de altura, destrói a morada das formigas, espalha ao longe as formigas, seus ovos… Nem as mais filosóficas dentre elas jamais entenderão esse corpo negro, imenso, assustador: a bota do caçador que de repente penetrou em sua moradia com uma incrível rapidez, precedida por um barulho assombroso, acompanhado de fagulhas de fogo avermelhado…
“Assim também a morte, a eternidade, coisas muito simples para quem tivesse órgãos bastante amplos para concebê-las…
“Uma efêmera mosca nasce às nove horas da manhã nos longos dias de verão, para morrer às cinco horas da tarde; como poderia compreender a palavra noite? Dêem-lhe mais umas cinco horas de existência e ela vê e compreende o que é a noite.”
O vermelho e o negro – Stendhal
Cosac & Naify
ISBN 8575032321

sábado, 11 julho, 2009 

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