Nossa civilização ainda se encontra dividida entre a cognição e a estética helênicas e a religião e a moralidade hebraicas. Pode-se dizer que a mão da civilização ocidental (e, com efeito, de grande parte da oriental também) tem cinco dedos desiguais: Moisés, Sócrates, Jesus, Shakespeare e Freud. A cultura de Platão é inteiramente socrática, por definição; mas é também involuntariamente homérica. Entre A República e nós se interpõem Moisés, Jesus, Shakespeare e Freud, e, embora não possamos abandonar Atenas, será difícil evitar o sofrimento, se não preferirmos Jerusalém.
A República, penso eu, é leitura tão intensa quanto desagradável, principalmente porque Platão estabelece, com toda correção, que a maioria dos cidadãos jamais amadurece e, portanto, precisa ser alimentada à base de ficções benignas, em lugar dos épicos homéricos, em que os deuses são espectadores malévolos e egoístas, felizes em nos ver sofrer no teatro da crueldade por eles construído.
[…] Pois o que marca o Ocidente é a idéia de que a cognição segue em um sentido, e a vida espiritual, em outro. Não temos outros meios de pensar que não sejam gregos, e, no entanto, nossa moralidade e nossa religião – interna e externa – têm como fonte primeira a Bíblia Hebraica.
Onde encontrar a sabedoria? – Harold Bloom
Objetiva
ISBN 8573027088

sábado, 1 agosto, 2009 

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