Não saber o que houve antes de nós, é sermos criança

Os compromissos religiosos de Bengel(*) permeavam toda a sua vida e todos os seus pensamentos. Pode-se fazer facilmente a idéia da seriedade com que ele abordava a própria fé pelo título da aula inaugural que proferiu quando foi indicado como assistente em um novo seminário teológico em Denkendorf: “De certissima ad veram eruditionem perveniendi ratione per studium pietatis”. (A busca da piedade é o método mais seguro de atingir o sólido saber).

Bengel era um intérprete do texto bíblico extremamente cuidadoso e classicamente treinado. Ele se tornou mais conhecido como comentador bíblico, porque escreveu notas extensivas a todos os livros do Novo Testamento, nas quais explorava, em pormenor, questões de interpretação, de história e de gramática, em exposições claras e atraentes – merecedoras de leitura ainda hoje. No núcleo dessa obra de exegese, estava a confiança nas palavras das Escrituras. Tal confiança ia tão longe que levou Bengel a rumos que hoje podem parecer uma esquisitice sombria. Pensando que todas as palavras das Escrituras eram inspiradas – inclusive as palavras dos profetas e o livro do Apocalipse –, Bengel se convenceu de que a maior aproximação de Deus com os assuntos humanos aproximava-se do clímax e de que a profecia bíblica indicava que a geração dele vivia perto do fim dos tempos. Ele, de fato, acreditava que sabia quando o fim se daria: mais ou menos dali a cem anos, em 1836.

Bengel não se deixou persuadir por versículos como Mateus 24,36, que diz: “Mas o dia e a hora, ninguém os conhece, nem os anjos do céu, nem o Filho, ninguém além do Pai, e só ele”. Intérprete cuidadoso que era, Bengel ressalta que Jesus fala no presente: em seu próprio tempo Jesus podia dizer “ninguém conhece”, o que não significa que num tempo posterior se continuasse a não conhecer. De fato, por meio do estudo das profecias bíblicas, cristãos de tempos futuros podiam vir a saber. O papado era o anticristo, os maçons podem ter representado o falso “profeta” do Apocalipse e o fim estava um século adiante (ele escrevia na década de 1730).

A Grande Tribulação, que a igreja primitiva buscava no futuro Anticristo, ainda não aconteceu, mas está muito próxima; porque as predições do Apocalipse, do capítulo 10 ao capítulo 14, vêm sendo realizadas por muitos séculos; e o ponto principal vai ficando cada vez mais claro à visão, de que dentro de cem anos a grande mudança das coisas que se aguarda ocorrerá… Desse modo, deixemos o aviso, especialmente do grande fim que antecipo para 1836.

Pelo que se vê, os previsores de ruínas de nosso próprio tempo – como Hal Lindsay (autor de The late great planet Earth) ou Tim Lahaye (co-autor da série Deixados para trás) – têm seus predecessores, assim como terão sucessores, num verdadeiro sem-fim.

(*) Johann Albrecht Bengel

O que Jesus disse? O que Jesus o disse? – Bart D. Ehrman
Prestígio Editorial
ISBN 8599170988

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