Quando me foi perguntado se eu sabia algo sobre seu trabalho entre os pobres, e se a tinha conhecido, respondi que tinha percorrido Calcutá em sua companhia e chegado à conclusão de que ela não era tão amiga dos pobres quanto da pobreza. Ela louvava a pobreza, a doença e o sofrimento como presentes dos céus, e dizia às pessoas para aceitar esses presentes com prazer. Ela se opunha ferrenhamente à única política que já conseguiu reduzir a pobreza em qualquer país – ou seja, o fortalecimento das mulheres e seu controle sobre a própria fertilidade. Sua famosa clínica de Calcutá na verdade não passava de um hospício primitivo – um lugar para as pessoas morrerem, e um lugar onde o tratamento médico era mínimo ou inexistente. (Quando ela mesma ficou doente, voou de primeira classe para uma clínica particular na Califórnia.) As quantias enormes que ela arrecadava eram gastas principalmente na construção de conventos em homenagem a ela mesma. E foi amiga de uma série de escroques e exploradores ricos, de Charles Keating, da Lincoln Savings & Loans, à hedionda dinastia Duvalier do Haiti, tendo aceitado deles grandes doações em dinheiro que na verdade tinha sido roubado dos pobres.
[…] Eu acrescentei que ninguém acusa madre Teresa de embolsar nada para o seu próprio proveito, mas se de fato o dinheiro tinha sido gasto com proselitismo do fundamentalismo católico em países pobres – como ela mais de uma vez parece ter alegado –, esse não era o objetivo pelo qual a maioria das pessoas achava que o tinha dado.
[…] Em dado ponto do depoimento me perguntaram se a considerava culpada do pecado da hipocrisia. Eu disse não. Ela sempre tinha anunciado suas crenças reacionárias extremadas; não era culpa dela se ninguém prestou atenção, e se a mídia ouviu, decidiu que ela era um tipo piedoso sofredor. Havia uma coisa, porém. Em 1995, o povo da Irlanda fez um referendo sobre se deveria permitir divórcios e novos casamentos. Madre Teresa interferiu fortemente na campanha pelo “não”. Uma irlandesa, casada com um alcoólatra incestuoso agressivo, deveria deixar isso de lado e oferecer a outra face. Mas no mesmo ano madre Teresa concedeu uma entrevista a Ladies’ Home Journal dizendo que tinha ficado feliz de saber que sua amiga princesa Diana estava se divorciando, já que o casamento real era, obviamente, infeliz. Eu disse que esperava que isso fosse hipocrisia, caso contrário parecia como a Igreja medieval, pregando uma moral rígida para os pobres e oferecendo indulgências aos ricos.
Amor, pobreza e guerra – Christopher Hitchens
Ediouro
ISBN 8500020091

segunda-feira, 24 agosto, 2009 


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