Seu rosto tinha um acentuado perfil aquilino, com um nariz magro e pronunciado e narinas curvadas de uma forma peculiar; sua testa era larga e arredondada, e o cabelo escasseava nas têmporas, mas era farto no resto da cabeça. Suas sobrancelhas eram muito densas e quase se encontravam acima do nariz, com pêlos cerrados que pareciam se enrolar, de tão profusos. A boca, até onde eu conseguia vê-la sob o bigode farto, era rígida e de aparência cruel, com dentes brancos e peculiarmente afiados. Os dentes superiores projetavam-se sobre os inferiores e apareciam entre os lábios, que eram notavelmente corados e revelavam uma surpreendente vitalidade num homem daquela idade. Quanto ao resto, suas orelhas eram pálidas, com extremidades bastante pontudas. O queixo era largo e forte, e as maçãs do rosto, firmes, ainda que magras. O efeito geral era da mais extraordinária palidez.
Eu já tinha reparado nas costas de suas mãos, apoiadas em seus joelhos, à luz da lareira, e elas me haviam causado a impressão de ser muito brancas e delicadas; vendo-as agora de perto, porém, não pude deixar de notar que eram na verdade grosseiras – largas, com dedos curtos. Por mais estranho que pareça, havia cabelo nas palmas. As unhas eram compridas e delgadas, com extremidades pontiagudas. Quando o Conde se curvou em minha direção e suas mãos me tocaram, não pude evitar um calafrio. Talvez fosse por causa de seu mau hálito, mas dominou-me uma náusea terrível; não consegui disfarçá-la, por mais que tentasse. O Conde evidentemente notou-a e recuou. Com um sorriso sinistro, que revelava mais seus dentes protuberantes do que até então, voltou a sentar-se do outro lado da lareira. Ficamos em silêncio por algum tempo; enquanto eu olhava na direção da janela, vi os primeiros e pálidos raios da aurora que se aproximava. Todas as coisas pareciam tomadas por uma estranha quietude, mas logo escutei o uivo de muitos lobos, como se viesse do vale lá embaixo. Os olhos do Conde brilharam, e ele disse:
− Ouça! Os filhos da noite. Que música eles fazem!
Vendo, suponho, alguma expressão em meu rosto que lhe era estranha, acrescentou:
− Ah, meu senhor, os habitantes da cidade não são capazes de compreender os sentimentos de um caçador – e ergueu-se.
Drácula – Bram Stoker
Ediouro
ISBN 8500009047

domingo, 6 setembro, 2009 


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