Vampiro, desejo inconfessável

Preste atenção quando lhe digo: Jamais houve um justo lugar para o mal no mundo ocidental. Jamais houve uma fácil aceitação da morte.

Não importa o quão violentos tenham sido os séculos desde a queda de Roma, não importa o quão terríveis as guerras, as perseguições, as injustiças, o valor atribuído à vida humana só aumentou.

Mesmo enquanto a Igreja eregia estátuas e pinturas de seu Cristo sangrento e de seus mártires sangrentos, ela manteve a crença de que essas mortes, tão bem aproveitadas pelos fiéis, só podiam ter vindo das mãos dos inimigos, não dos próprios sacerdotes de Deus.

É esta crença no valor da vida humana que fez com que as câmaras de tortura, a empalação e os meios de execução mais horríveis fossem abandonados em toda Europa nos dias de hoje. E é esta crença no valor da vida humana que arrasta o homem para fora da monarquia em direção às repúblicas na América e na França.

E agora estamos de novo no ápice de uma era ateísta – uma época em que a fé cristã está perdendo sua influência, assim como o paganismo perdeu no passado, e o novo humanismo, a crença no homem, em suas realizações e em seus direitos, está mais poderoso do que nunca.

Claro que não podemos saber o que irá acontecer quando a velha religião desaparecer por completo. A cristandade surgiu das cinzas do paganismo, apenas para levar adiante o antigo culto em nova forma. Talvez uma nova religião surja agora. Talvez, sem ela, o homem sucumba ao ceticismo e ao egoísmo, porque realmente precisa de seus deuses.

Mas talvez alguma coisa mais maravilhosa ocorra: o mundo avançará de verdade, deixando para trás todos os deuses e deusas, todos os diabos e anjos. Num mundo como esse haverá menos lugar para nós do que já houve um dia.

No final, todas as histórias que lhe contei são tão inúteis quanto todo o conhecimento antigo o é para o homem e para nós. Suas imagens e sua poesia podem ser belas; podem fazer-nos estremecer diante da identificação de coisas que sempre suspeitamos ou sentimos. Podem fazer-nos retroceder a tempos em que a Terra era algo novo e assombroso para o homem. Mas nós sempre retornamos ao caminho em que a Terra está neste momento.

E, neste mundo, o vampiro é apenas um Deus maligno. Ele é um Filho das Trevas. Não pode ser nada mais. E se exerce algum poder de atração na mente dos homens é apenas porque a imaginação humana é um lugar secreto de lembranças primitivas e desejos inconfessáveis. A mente de cada homem é um Jardim Selvagem, para usar sua expressão, no qual todos os tipos de criaturas surgem e sucumbem, cânticos são entoados e coisas são imaginadas, sendo no final condenadas e repudiadas.

No entanto, os homens nos amam quando passam a nos conhecer.

O Vampiro Lestat – Anne Rice
Rocco
ISBN 8532509762

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