
Não, pois não se ordena o amor! Kant disse: “O amor é uma questão de sentimento e não de vontade; não posso amar porque quero, menos ainda porque tenho de; daí decorre que ter de amar é um contra-senso.” Se sua mulher não o ama mais, que sentido haveria em dizer ela: “Você tem de me amar”? Não se ordena o amor. Ora, a moral é o conjunto dos mandamentos incondicionais que você se impõe a si mesmo, ou que você considera que se impõem, ou deveriam se impor, universalmente (é o que Kant chama de “imperativo categórico”). Portanto o amor se situa além da moral. É o espírito dos Evangelhos, dizia eu na minha exposição, como Santo Agostinho resumiu genialmente: “Ame e faça o que quiser.” Nesse sentido, não há moral evangélica; só há uma ética evangélica.
Isso não significa evidentemente que seja imoral amar. O amor vai bem mais longe que a moral, mas não a anula, não a viola: ele prolonga. Não a abole: ele a consuma.
Tomemos um exemplo. O senhor vê uma jovem mãe de família dando de mamar ao seu recém-nascido. Pergunta a ela: “Por que você dá de mamar a esta criança?” Imaginemos que ela responda: “Por razões morais; considero que é meu dever.” O senhor pensaria consigo: “Pobre mãe, pobre criança!” No entanto é mesmo um dever dela alimentar seu filho. Mas a verdade é que ela a alimenta por amor, e que é muito melhor assim, tanto para ela como para a criança.
E existe expressão mais atroz que a de “dever conjugal”? Quando o amor existe, não é mais preciso moral. O amor basta e é melhor que ela.
Só necessitamos de moral por falta de amor. É por isso que necessitamos terrivelmente dela – porque o amor, no mais das vezes, não está presente.
O que nos diz a moral? Não nos diz para amar (não se ordena o amor), mas para agir como se amássemos (pode-se ordenar uma ação). É o que Kant chama de amor prático (práxis, em grego, é ação). A moral é um semblante de amor. O ideal seria, claro, amar de verdade o próximo. Mas é nos pedir demais. De amor, somos tão pouco e tão mal capazes! Resta então agir como se amássemos… É a própria moral.
Por exemplo, quando amamos, damos. O amor é generoso, diz-se… Sim. Mas quando damos por amor, não é generosidade, é amor. Quando cobrimos nossos filhos de presentes no Natal, não nos dizemos: “Como sou generoso!” Dizemos: “Como amo meus filhos” Eventualmente: “Como sou bobo!”, mas não: “Como sou generoso!” O amor dá, mas quando damos por amor não é generosidade. Isso desemboca numa definição da generosidade (como virtude propriamente moral) que acho tremendamente esclarecedora: ser generoso é dar a quem não amamos. Por exemplo, dar de comer a quem tem fome; dar dinheiro a quem está na miséria…
Muito bem. Mas onde vamos parar? Se dou a todos os pobres, o que vai sobrar para mim? Amor, é nos pedir demais. Mas moral também! Dar a quem não amo? Nem pensar, ou o menos possível! Então, como fazer? Inventamos o direito, para relações objetivas, e a polidez, para as relações subjetivas. Na falta de ser generoso, pelo menos respeite a propriedade alheia. Na falta de respeitar o outro, pelo menos simule: diga-lhe “Desculpe”, se esbarra nele, “Por favor”, se lhe pede alguma coisa, “Obrigado”, se ele te dá. É imitar o respeito e a gratidão que nos faltam. É imitar a moral, na ausência dela.
O direito e a polidez imitam a moral (ser polido e respeitar a legalidade é agir como se fôssemos virtuosos); a moral imita o amor (ser moral é agir como se amássemos). Vocês vão me perguntar: “Mas, então, quando é que a gente pára de simular?” Em duas situações, talvez somente duas mesmo: quando agimos por amor, é o que chamo de ética, ou quando renunciamos a simular, é o que chamo de barbárie.
Note que uma sociedade em que todo o mundo respeitaria rigorosamente o direito e a polidez seria uma sociedade agradabilíssima para se viver. Mas lhe faltaria o essencial, que é o amor, e sua imitação mais próxima, que é a moral. A concupiscência deu lugar a um “regulamento admirável, escreve Pascal, e como que a um “quadro da caridade”. Mas não passa de um quadro – de uma imitação. A sociedade, se todo mundo respeitasse o direito e a polidez, funcionaria muito bem. Mas mesmo assim seríamos uns condenados, diria Pascal. Digamos que mesmo assim estaríamos perdidos. Não é o direito nem a polidez que salvam, nem mesmo a moral; é o amor. Nisso, remeto a Espinosa. Ele, que, como eu, também não era cristão, tem esta fórmula, a propósito de Jesus Cristo: “Ele libertou seus discípulos da servidão da lei, e no entanto confirmou-a e inscreveu-a para sempre no fundo dos corações.” Cristo não veio para abolir, mas para consumar. Ele não nos diz que a lei perdeu todo valor. Ele nos diz ao contrário: “O que você fazia antes por dever (por respeito à lei moral), faça doravante por amor.” Tanto melhor para os que conseguem. Parece-me que não são muito numerosos. Para os outros, resta a lei moral. E para os que não conseguem ser morais (todos nós, na maioria das vezes), resta a lei da Cidade (o direito). A ética é melhor que a moral. A moral é melhor que o direito. Mas a moral é mais necessária que o amor, e o direito é mais realista que a moral. Se não somos capazes de viver à altura do Novo Testamento, respeitemos pelo menos o Antigo.
O capitalismo é moral? – André Comte-Sponville
Martins Fontes
ISBN 8533621663

quarta-feira, 16 setembro, 2009 

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