Canto de sereia

Vem até nós, famoso Ulisses, glória maior dos Aqueus!
pára a nau, para que nos possas ouvir! pois nunca
por nós passou nenhum homem na sua escura nau
que não ouvisse primeiro o doce canto das nossas bocas;
depois de se deleitar, prossegue caminho, já mais sabedor.
Pois nós sabemos todas as coisas que na ampla Tróia
Arguivos e Troianos sofreram pela vontade dos deuses;
e sabemos todas as coisas que aconteceram na terra fértil.

“O homem”, observou o poeta Paul Valéry, “é o herdeiro e refém do tempo – o animal cuja principal morada está no passado ou no futuro.” Foi essa capacidade de reter o passado e de agir no presente tendo em vista o futuro que nos tirou da condição de bestas sadias e errantes.

O problema, contudo, é que a nossa faculdade de arbitrar entre as premências do presente vivido e os objetivos do futuro imaginado é muitas vezes prejudicada pela nossa propensão espontânea a descontar pesadamente o futuro, ou seja, a atribuir um valor desproporcional àquilo que está mais próximo de nós no tempo. O problema da miopia temporal na existência humana é retratado de forma magnífica pela tradição poética grega em torno dos perigos enfrentados pelos navegantes ao ouvir o canto das sereias.

Quem é tão firme que nada pode seduzir? O canto das sereias é uma imagem que remonta às mais luminosas fontes da mitologia e literatura gregas. As versões da fábula e os detalhes da narrativa variam de autor para autor, mas o sentido geral da trama é comum.

As sereias eram criaturas sobre-humanas: ninfas de extraordinária beleza e de um magnetismo sensual. Viviam sozinhas numa ilha do Mediterrâneo, mas tinham o dom de chamar a si os navegantes, graças ao irresistível poder de sedução de seu canto. Atraídos por aquela melodia divina, os navios costeavam a ilha, batiam nos recifes submersos da beira-mar e naufragavam. As sereias então devoravam impiedosamente os tripulantes. O litoral da ilha era um gigantesco cemitério marinho no qual estavam atulhadas as incontáveis naus e ossadas tragadas por aquele canto sublima desde o início das eras.

Doce o caminho, amargo o fim. Como escapar com vida do canto das sereias? Muitos tentaram, mas pouquíssimos conseguiram salvar-se. A literatura grega registra duas soluções vitoriosas. Uma delas foi a saída encontrada, no calor da hora, por Orfeu, o incomparável gênio da música e da poesia na mitologia grega. Quando a embarcação na qual ele navegava entrou inadvertidamente no raio de ação das sereias, ele conseguiu impedir que a tripulação perdesse a cabeça tocando uma música ainda mais doce e sublime do que aquela que vinha da ilha. Os tripulantes, com apenas uma exceção, ficaram tão atentos ao canto de Orfeu que nem deram ouvidos ao som das sereias. O navio atravessou incólume a zona de perigo. O brilho empolgante do canto órfico ofuscou a promessa de calor do canto sirênico.

A outra solução foi encontrada e adotada por Ulisses no poema homérico. Ao contrário de Orfeu, o herói de Odisséia não era um ser dotado de talento artístico sobre-humano. Sair cantando do perigo, portanto, estava fora de questão no seu caso. Sua principal arma para vencer as sereias não foi o golpe de gênio ou a improvisação talentosa. Foi o reconhecimento franco e corajoso da sua própria fraqueza e falibilidade – a aceitação dos seus inescapáveis limites humanos.

Ulisses sabia que, quando chegasse a hora, ele e seus homens não teriam força e firmeza para resistir ao apelo sedutor das sereias. Foi por isso que, no momento em que a embarcação que comandava começou a se aproximar da ilha, ele mandou que todos os tripulantes tapassem os próprios ouvidos com cera e ordenou que amarrassem-no ao mastro central do navio. Avisou ainda que, se por acaso ele exigisse, com gestos e gritos, que o soltassem dali, o que deveriam fazer era prendê-lo ao mastro com mais cordas e redobrada firmeza. Dito e feito. Quando chegou a hora, Ulisses foi seduzido pelas sereias e fez de tudo para convencer os demais tripulantes a deixarem-no livre para ir juntar-se a elas. Seus subordinados, contudo, souberam negar-lhe tais apelos e cumpriram fielmente a ordem de não soltá-lo, sob qualquer pretexto, até que estivessem suficientemente longe da zona de perigo. Ulisses, é verdade, por pouco não enlouqueceu de desejo. Mas as sereias, desesperadas diante daquela derrota para um simples mortal, afogaram-se de desgosto no mar.

Orfeu escapou das sereias como divindade; Ulisses como mortal. Ao se aproximar do espaço-tempo das sereias, a escolha diante do herói homérico era clara: o bem aparente, com a falsa promessa de gratificação imediata, de um lado, e o bem permanente de seu projeto de vida – prosseguir viagem, retornar a Ítaca e reconquistar Penélope –, do outro. O mais surpreendente é que Ulisses não tampou com cera os próprios ouvidos – ele quis ouvir. Ele estava ciente de que não resistiria, mas fez questão de se deixar seduzir e enlouquecer de desejo por algo que sabia ser letal.

Saber não basta. Ulisses não se furtou à experiência de desejar desesperadamente aquilo que o levaria ao naufrágio e à morte certa. Da parcialidade suicida do seu desejo pela máxima promessa de prazer imediato, não importa a que custo ou sacrifício, ele não escapou. O que salvou Ulisses não foi a consciência da falsidade mortal do canto, mas a sabedoria de não superestimar em momento algum a sua capacidade de resistência ao poder de sedução das sereias. Atando-se ao mastro do navio, ele abriu temporariamente mão de sua liberdade de escolha no presente para salvar sua vida e liberdade futuras. Mortal, porém capaz de respeitar os próprios limites, ele soube lidar racionalmente com a sua vertiginosa miopia temporal, criando um estratagema engenhoso para proteger-se dela.

O que é feito da melodia e do canto – vibrações sonoras que se propagam no ar – na vivência interna de quem houve e se encanta? A verdadeira história de Ulisses foi contra ele mesmo. Foi contra a fraqueza, o oportunismo suicida e a surdez delirante que ele soube ouvir e reconhecer em sua própria alma.

O embate entre Ulisses e as sereias dramatiza e dá proporções épicas a um conflito que acompanha a nossa prosaica odisséia pela vida. Como alerta David Hume, “não existe atributo da natureza humana que provoque mais erros fatais em nossa conduta do que aquele que nos leva a preferir o que quer que esteja presente em relação ao que está distante e remoto, e que nos faz desejar os objetos mais de acordo com a sua situação de que com o seu valor intrínseco”. O que não pode vir a ser canto de sereia no contexto singular de uma trajetória de vida e na textura volitiva da mente individual?

É o bar em cada esquina no caminho da oficina da canção popular; é o meio litro de sopa adicional pelo qual um prisioneiro em campo de concentração nazista era tentado a trocar sua alma e sua lealdade; é o vício pelo ópio que levou o poeta Coloridge à insólita decisão de contratar um funcionário com a missão precípua de barrá-lo fisicamente toda vez que se dirigisse à farmácia para adquirir a droga; é o hábito e o prazer de fumar charutos que Freud não conseguiu vencer, apesar de décadas de auto-análise e da consciência dos seus efeitos nocivos e posterior câncer de boca; é a incontinência aquisitiva de Johnny Hodges (saxofonista da banda de Duke Ellington), que gastava impulsivamente todo o dinheiro que lhe caída nas mãos até que passou a receber os cachês em cotas diárias; é o sono envolvente que faz um motorista adormecer ao volante do automóvel; é o fumante que paga, no mesmo dia, por cigarros e por remédios para parar de fumar; é a mulher obesa que freqüenta a doceira ao lado do escritório e a clínica de emagrecimento… a lista é sem fim. A cantoria prosaica das sereias, como a lendária garrafa de Guinness, tem o dom de se tornar a encher e encantar de novo toda vez que é esvaziada. “Cada homem faz o seu próprio naufrágio.”

Auto-engano – Eduardo Giannetti
Companhia de Bolso
ISBN 8535907424

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