Religião

A religião fez mais mortos (muito mais!) do que a matemática, que não fez nenhum. Hobbes sugere em algum lugar que é porque a matemática não toca nossos interesses; mas o argumento é fraco: os cálculos do gerente da minha conta bancária, que são estritamente matemáticos, tocam meus interesses muito mais diretamente do que este ou aquele ponto de teologia ou de política, em razão de que se multiplicaram os cadáveres; simplesmente, seus cálculos são verificáveis, e isso dispensa o combate. Nós só nos matamos na falta de provas: a razão do mais forte só vale onde a razão não vale. Somente as falsas ciências são terroristas, ou podem sê-lo. Os homens se matam, não pelo que conhecem, mas pelo que crêem, vale dizer pelo que ignoram. O exemplo da teologia é bem claro aqui: as guerras de religião se fizeram certamente em nome de um suposto saber, ou de vários, mas só foram possíveis porque esses saberes não eram verdadeiramente saberes, em outras palavras, porque ignorávamos – e continuamos ignorando – o que na verdade diz respeito a Deus. Não é portanto a verdade que é culpada, nem o conhecimento, nem portanto o universal, mas o encontro no homem, sempre particular, do desejo e da ignorância. Nós só combatemos por “verdades” que ignoramos e porque as ignoramos. O fanatismo não é amor à verdade: é o amor à verdade que se acredita conhecer; é portanto o amor à crença e a si próprio. Há coisa menos universal? Só há fanatismo onde não há nem prova nem demonstração. Fanatismo, portanto, não por excesso, mas (mesmo que ele se diga racionalista – isso já se viu) por falta de razão! O verdadeiro saber, ao contrário, é calmo, assim como a razão, em seu princípio, é pacífica: se dois lógicos brigam, é que renunciaram, pelo menos provisoriamente, à lógica. Que seria um matemático fanático? Um físico fanático? A “ciência” marxista só fez tantos mortos por não ser uma ciência, do mesmo modo que a “ciência” teológica. Uma fogueira não é um argumento, um campo de concentração não é um argumento, e só se precisa deles quando faltam os argumentos decisivos. Isso dá razão a Montaigne, sem tirar razão do universal: de fato, só se queima um homem por conjecturas, e todas elas são particulares; em outras palavras, só se queima por verdades ignoradas. A ignorância, e não o verdadeiro, é que é a culpada. É o desejo, e não a razão, que acende a fogueira…

Valor e verdade – André Comte-Sponville
Martins Fontes
ISBN 9788578270049

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