Em The mating mind, Geoffrey Miller explica que uma porcentagem muito elevada dos genes humanos, talvez cerca de 50%, se expressa no cérebro. E mais uma vez, tendo em vista a clareza, convém contarmos a história de um só ponto de vista, as fêmeas escolhendo os machos. Mas poderia ser o contrário, ou os dois modos simultaneamente. Uma fêmea que busca uma leitura penetrante e completa da qualidade dos genes de um macho procederia com acerto se se concentrasse no cérebro dele. Como não pode enxergar o cérebro, ela olha as obras do indivíduo. E, seguindo a teoria de que os machos devem facilitar isso anunciando suas qualidades, eles não esconderão seu brilho mental; ao contrário, tratarão de evidenciá-los. Vão cantar, dançar, serão bons conversadores, contarão piadas, comporão músicas ou poemas, tocarão instrumentos ou recitarão poesia, pintarão em paredes e cavernas ou no teto da Capela Sistina. Sim, sim, eu sei que Miquelangelo talvez não tivesse nenhum interesse de impressionar mulheres. Mesmo assim, é bastante plausível que o cérebro dele tenha sido “projetado” pela seleção natural para impressionar fêmeas, exatamente como – não importando suas preferências pessoais – seu pênis foi projetado para engravidá-las. A mente humana, nessa visão, é uma cauda de pavão mental. E o cérebro expandiu-se sob o mesmo tipo de seleção sexual que impeliu o aumento da cauda do pavão. O próprio Miller prefere a versão wallaceana à versão fisheriana para a seleção sexual, mas a consequência é essencialmente a mesma: o cérebro aumenta, e de um modo veloz e explosivo.
A psicóloga Susan Blackmore, em seu ousado livro The meme machine, apresenta uma teoria mais radical sobre a seleção sexual da mente humana. Essa autora recorre ao que batizamos de “memes”, unidades de herança cultural. Memes não são genes e não tem nenhuma relação com o DNA, exceto por analogia. Enquanto os genes são transmitidos por óvulos fertilizados (ou por vírus), os memes transmitem-se por imitação. Se eu ensinar você a fazer um modelo em origami de um junco chinês, um meme passa do meu cérebro para o seu. Você pode então ensinar a duas pessoas essa mesma habilidade, e cada uma delas ensinar a outras duas e assim por diante. O meme propaga-se exponencialmente, como um vírus. Supondo que todos nós cumprimos de forma adequada nossa tarefa de ensinar, as “gerações” posteriores do meme não serão perceptivelmente diferentes das primeiras gerações. Todas produzirão o mesmo “fenótipo” do origami. Alguns juncos podem ser mais perfeitos do que outros se, digamos, alguns dobradores de papel forem mais cuidadosos. Mas a qualidade não se deteriorará de modo gradual e progressivo ao longo das “gerações”. O meme é transmitido, inteiro e intacto como um gene, mesmo se sua expressão fenotípica detalhada variar. Esse exemplo específico de um meme é um bom análogo para um gene, especificamente um gene de vírus. Um modo de falar ou uma técnica de marcenaria podem ser candidatos mais dúbios a memes porque é provável – estou supondo – que, progressivamente, “gerações” posteriores em uma linhagem de imitação se diferenciem mais da geração original.
Blackmore, assim como o filósofo Daniel Dennett, acredita que os memes tiveram um papel decisivo no processo que nos tornou humanos. Nas palavras de Dennett:
O porto que todos os memes esperam chegar é a mente humana, mas a própria mente humana é um artefato criado quando memes reestruturam um cérebro humano para torná-lo um melhor habitat para memes. As rotas de entrada e saída são modificadas para adequar-se às condições locais e reforçadas por vários recursos artificiais que intensificam a fidelidade e a prolixidade da replicação: mentes de chineses nativos diferem drasticamente de mentes de franceses nativos, e memes de literatos diferem de mentes de iletrados.
Dennett pensaria que a principal diferença entre os cérebros anatomicamente modernos antes e depois do Grande Salto para Frente na cultura é que os cérebros posteriores ao Grande Salto fervilham de memes. Blackmore vai além. Invoca os memes para explicar a evolução do avantajado cérebro humano. Isso não poderia ser obra só de memes, evidentemente, pois estamos falando aqui de uma mudança anatômica fundamental. Os memes podem manifestar-se no fenótipo do pênis circuncidado (que às vezes passa, de um modo quase genético, de pai para filho) e até em uma forma corporal (pense em uma moda transmitida de emagrecer ou de alongar o pescoço com colares). Só que a duplicação de tamanho do cérebro é outra coisa. Ela tem de ocorrer por meio de mudanças no reservatório gênico. Mas então, que papel Blackmore vê para os memes na expansão evolutiva do cérebro humano? É aqui, mais uma vez, que entra a seleção sexual.
As pessoas tendem mais a copiar seus memes de modelos admirados. Esse é um fato no qual os anunciantes apostam seu dinheiro: pagam a jogadores de futebol, astros de cinema e supermodelos para recomendar produtos – pessoas que não tem um conhecimento especializado para avaliá-los. Indivíduos atraentes, admirados, talentosos ou por algum outro motivo renomados são poderosos doadores de memes. Essas mesmas pessoas também tendem a ser sexualmente atraentes e, portanto, ao menos no tipo de sociedade polígama na qual é provável que tenham vivido nossos ancestrais, ser poderosos doadores de genes. Em cada geração, os indivíduos atraentes contribuem proporcionalmente mais tanto com genes como com memes para a geração seguinte. Blackmore supõe que parte do que torna uma pessoa atraente é sua mente geradora de memes: uma mente criativa, artística, loquaz, eloquente. E os genes ajudam a produzir o tipo de cérebro eficiente para gerar memes atraentes. Assim, a seleção quase darwiniana de memes no reservatório “mêmico” anda de mãos dadas com a seleção sexual genuinamente darwiniana de genes no reservatório gênico. Eis mais uma receita para a evolução desenfreada.
A grande história da evolução – Richard Dawkins
Companhia das Letras
ISBN 9788535914412

quinta-feira, 26 agosto, 2010 


Ainda sem comentários... Seja o primeiro a responder!