De todas as fórmulas tolas, a do livro “que não será mais reescrito” corre o risco de ser a mais tola.
Ou melhor: não se reescreverá mais, esse livro, não porque ele alcance o absoluto da perfeição, mas porque é filho de seu tempo. História, filha do tempo. Não digo, por certo, para diminuí-la. Filosofia, filha do tempo. Física mesmo, filha de seu tempo: a de Langevin não é mais a de Galileu, que não é mais a de Aristóteles.
Progresso de uma a outra? Quero crer que sim.
Historiadores, falemos sobretudo de adaptação ao tempo.
Cada Época fabrica mentalmente seu universo. Ela não o fabrica apenas com todos os materiais de que dispõe, todos os fatos (verdadeiros ou falsos) que herdou ou que acaba de adquirir. Fabrica-o com seus dons próprios, sua engenhosidade específica, suas qualidades, seus dons e suas curiosidades, tudo aquilo que a distingue das épocas precedentes. Igualmente, cada época fabrica mentalmente sua representação do passado histórico. Sua Roma e sua Atenas, sua Idade Média e sua Renascença.
Como?
Com os materiais de que dispõe – e por aí um elemento de Progresso pode insinuar-se no trabalho de história. Mais fatos, e mais diversos, os mais bem controlados: o ganho não é desprezível. Com igualdade de talento, não é a mesma a casa que o bom arquiteto constrói com velhas pedras e duas ou três vigas gastas – ou então com belas e boas pedras talhadas, em abundância, e belas peças de vigamento preparadas para a montagem.
Mas não há apenas os materiais. Há os dons também, e que variam, as qualidades de espírito e os métodos intelectuais; há, sobretudo, as curiosidades e os motivos de interesse, tão rápidos em se transformar e que projetam a atenção dos homens de uma época sobre tais aspectos do passado, muito tempo deixados na sombra, e que amanhã as trevas novamente recobrirão.
Não digamos que isso é humano, mas, sim, que é a lei do saber humano.
O problema da incredulidade no século XVI – Lucien Febvre
Companha das Letras
ISBN 9788535913286

domingo, 26 setembro, 2010 

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