Entre a ilusão e o desespero

O erro de Descartes foi o de ter reduzido Deus ao seu papel metafísico, e até mecânico (“dar um piparote, para pôr o mundo em movimento”), o de ter-se ocupado apenas do Deus dos filósofos e dos doutos, esquecendo o único que realmente conta, aquele de Abraão e de Jacó, aquele de Jesus Cristo, aquele do coração e da fé. Pascal, matemático e físico de exceção, não se deixa lograr nem pelas ciências (ele vê com clareza que o absoluto escapa necessariamente a elas) nem pelas pretensas “provas” da existência de Deus. Prefere colocar-nos diante de nossa miséria, diante de nossa grandeza (é preciso ser grande para saber-se miserável), mostra-nos que nenhuma felicidade nos é possível, exceto a fé, nem nenhuma justiça, nem nenhuma certeza; enfim, que somente Deus – e um só Deus: o de Jesus Cristo – pode nos salvar.

O espantoso é que ele o faz com um tal gênio, tanto literário quanto filosófico, com uma tal profundidade, com uma tal penetração, especialmente psicológica, que nisso se reconhecerão, à parte da fé, vários ateus, que verão nos Pensamentos a descrição mais exata da condição humana, perdidos que estamos dentro do infinito, fadados ao divertimento ou à angústia, à ilusão ou ao desespero.

Pascal ou a tragédia do existir… Fez-se dele um percursor do existencialismo. Mas Pascal é muito mais. É “o maior dos cristãos”, dirá Nietzsche, e sem dúvida também o maior dos franceses, e tanto mais considerável, como filósofo, quanto jamais acreditou na filosofia. É um mestre de lucidez, de “gênio assustador” (Paul Valéry) e fascinante. Não se escapa a Pascal. Resta resistir-lhe, se possível.

A Filosofia – André Comte-Sponville
Martins Fontes
ISBN 8533622120

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