É um erro capital teorizar antes de ter os dados. Insensivelmente, começa-se a distorcer os fatos para adaptá-los às teorias, em vez de fazer com que as teorias se adaptem aos fatos.
Sherlock Holmes, em A Scandal in Bohemia, de Conan Doyle (1891)
[…]refletindo a crença iluminista na perfectibilidade humana e na existência de um elo inabalável entre progresso e felicidade, o filósofo, matemático e agitador político francês marquês de Condorcet se propôs a demonstrar, no seu Esquisse d’un tableau historique des progrès de l’esprit humain (1795), que “a bondade moral do homem […] é suscetível de um aprimoramento ilimitado e que a natureza vincula estreitamente, numa corrente indissolúvel, a verdade, a felicidade e a virtude”.
Escrita na clandestinidade, durante a fase do Terror na Revolução Francesa, a obra do último expoente do iluminismo francês – um autoproclamado ateu – traía um fervor de fundo religioso. Na terra prometida da razão secular, vaticinava o marquês foragido, as desigualdades entre os indivíduos e as nações diminuiriam, a paz internacional seria alcançada e a adoção do livre-comércio e de uma língua franca universal selariam a fraternidade entre os povos. O avanço do saber científico e a difusão da educação popular dissipariam as trevas da superstição e da intolerância. Ao refletir sobre a etapa histórica que as transformações em curso anunciavam, Condorcet previu que “o progresso das artes mecânicas trará um novo padrão de conforto e felicidade à massa da humanidade”; “o estado atual do conhecimento nos assegura que o futuro será feliz, mas sob a condição de que saibamos como auxiliá-lo com toda a nossa força”.
O enredo é familiar: a estrada da razão e da virtude leva ao regaço da felicidade. O presente é o berço do futuro que sepultará o passado. Ao término da via-crúcis, a paz e a reconciliação. Crueldade, estupidez, sofrimento – nada terá sido em vão. A grande mudança reside no locus temporal da trama. O devir histórico – e não mais “a outra vida”, o paraíso do além cristão – passa a ser o palco da salvação. Tudo o que é bom convergiria em algum ponto do porvir. Como afirmava o filósofo político inglês Willian Godwin, pai da futura autora de Frankenstein (1818) e também ele ateu confesso, “quanto mais o homens se erguerem acima da pobreza e de uma vida de expedientes, mais a decência prevalecerá em sua conduta e a sobriedade nos seus sentimentos”. Diante da fé com que os filósofos ateus da “era da razão” se agarraram à visão de um futuro feliz para a humanidade, como não lembrar da arguta observação de Diderot, principal artífice da monumental Encyclopédie (1751-73), de que “a posteridade está para o filósofo assim como o outro mundo está para o religioso”?
Assim perguntamos, sem parar,
Até um punhado de terra
Cobrir a nossa boca
Mas isso será uma resposta?
Heinrich Heine, “Lázaro” (1854)
Felicidade – Eduardo Giannetti
Companhia das Letras
ISBN 9788535902976

quarta-feira, 27 julho, 2011 

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