“Aqueles que se sentem culpados só de pensar em “trair” a tradição que amam, ao reconhecer que desaprovam alguns elementos dela, deveriam refletir sobre o fato de que a própria tradição a que são tão leais – a tradição “eterna” apresentada a eles na juventude – é de fato o produto evoluído de muitos ajustes, firme mas delicadamente elaborados por amantes anteriores da mesma tradição.”
[…] No fim do século XVI, muita gente na Europa achava que a religião fora seriamente desacreditada. Estavam desgostosos com a matança de católicos por protestantes e de protestantes por católicos. Centenas de pessoas tinham morrido como mártires por manter opiniões impossíveis de provar num ou noutro sentido. Seitas que pregavam uma espantosa variedade de doutrinas julgadas essenciais para a salvação haviam proliferado de modo alarmante. Havia agora opções religiosas em demasia: muitos se sentiam paralisados e angustiados pela variedade de oferta de interpretações religiosas. Alguns talvez tenham sentido que a fé se tornava mais difícil de alcançar de que nunca. Foi portanto significativo que, nesse ponto da história do Deus ocidental, as pessoas começassem a identificar “ateus”, que pareciam tão numerosos quanto as “bruxas”, os velhos inimigos de Deus e aliados do demônio. Dizia-se que esses “ateus” negavam a existência de Deus, conquistavam convertidos para sua seita e minavam o tecido da sociedade. Contudo, era impossível um ateísmo integral, no sentido que usamos hoje.
Como mostrou Lucien Febvre em seu clássico livro O problema da descrença no século XVI, as dificuldades conceituais para uma completa negação da existência de Deus naquela época eram tão grandes que chegavam a ser insuperáveis. Do nascimento e batismo até a morte e enterro no cemitério da igreja, a religião dominava a vida de cada homem e cada mulher. Cada atividade do dia, pontuado pelos ensinos da igreja chamando os fiéis à prece, estava saturada de crenças e instituições religiosas: elas dominavam a vida profissional e pública – até as guildas e universidades eram organizações religiosas. Como observa Febvre, Deus e religião eram tão ubíquos que ninguém nessa época pensava em dizer: “Então nossa vida, toda nossa vida, é dominada pelo cristianismo! Como é minúscula a área de nossa vida já secularizada, em comparação com tudo que ainda é governado, regulado e formado pela religião!”.
Mesmo que um homem excepcional pudesse atingir a objetividade necessária para questionar a natureza da religião e a existência de Deus, não teria encontrado apoio nem na filosofia nem na ciência de sua época. Até formar-se um corpo de razões coerentes, cada uma baseada em outro grupo de constatações científicas, ninguém poderia negar a existência de um Deus cuja religião dava forma e dominava a vida moral, emocional, estética e política da Europa. Sem esse apoio, uma tal negação só poderia ser um capricho pessoal ou um impulso passageiro indigno de consideração séria. Como mostrou Febvre, uma linguagem vernacular como francês não tinha nem o vocabulário nem a sintaxe para o ceticismo. Palavras como “absoluto”, “relativo”, “conceito” e “intuição” ainda não se achavam em uso. Devemos também lembrar que nenhuma sociedade do mundo tinha ainda eliminado a religião, que era tomada como uma realidade da vida. Só no finzinho do século XVIII alguns europeus achariam possível negar a existência de Deus.
Que queriam dizer então as pessoas quando se acusavam umas às outras de “ateísmo”? O cientista Frances Martin Mersenne (1588-1648), que era também membro de uma severa ordem franciscana, declarou que havia cerca de 50 mil ateus só em Paris, mas a maioria dos “ateus” que citou acreditava em Deus. Assim Pierre Carrin, o amigo de Michel Montaigne, defendera o catolicismo em seu tratado Les trois verités [As três verdades] (1589), mas em sua principal obra, De La sagesse [A sabedoria], tinha acentuado a fragilidade da razão e afirmava que o homem só podia chegar a Deus pela fé. Mersenne era de outra opinião e via isso como equivalente a “ateísmo”. Outro dos “incréus” que ele denunciou foi o racionalista italiano Giordano Bruno (1548-1600), embora Bruno acreditasse num tipo de Deus estóico que era a alma, origem e fim do universo. Mersenne chamou esses dois homens de “ateus” porque discordava deles sobre Deus, não porque eles negassem a existência de um Ser Supremo. Mais ou menos do mesmo modo, os pagãos do Império romano haviam chamado os judeus e cristãos de “ateus” porque a opinião deles sobre o divino diferia da sua.
Nos séculos XVI e XVII, a palavra “ateu” ainda era reservada exclusivamente para a polêmica. Na verdade, era possível chamar qualquer dos inimigos de “ateu”, em grande parte como as pessoas eram chamadas de “anarquistas” e “comunistas” no fim do século XIX e início do XX.
Uma história de Deus – Karen Armstrong
Companhia das Letras
ISBN 8571644233

segunda-feira, 8 agosto, 2011 

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