Uma vida bela exige sentimentos de coragem em nome do amor

“Quando estamos nas tabernas, bebendo vinhos fortes,
As damas ao nosso lado, nos admirando,
Com seus pescoços lisos, seus corpetes justos,
O olhos brilhantes de beleza cintilante,
A natureza nos estimula a ter um coração desejante.
…Então nós derrotamos Yaumont e Agoulant,
E outros derrotam Oliver e Roland.
Mas quando estamos no campo, montados em nossos cavalos,
O escudo no peito e as lanças empunhadas para frente,
E quando o frio cortante nos enregela completamente,
Os membros são esmagados, na frente e atrás,
E nossos inimigos se aproximam de nós,
Então quereríamos estar num porão, tão grande,
Que de forma alguma jamais seríamos vistos.”
Le voeu Du héron [O juramento da garça]
Jean de Beaumont e seu voto de combate

 

O elemento erótico do torneio cavaleiresco fica evidente no costume que tinham os cavaleiros de portar um véu ou o vestido da mulher amada, que traziam o cheiro do cabelo e do corpo delas. No fervor da luta, as mulheres vão presenteando uma jóia após outra: quando o jogo termina, lá estão elas de cabeça descoberta, e sem as mangas das roupas. Isso se tornou o motivo excitante para um poema da segunda metade do século XIII: Dos três cavaleiros e a blusa. Uma dama, cujo marido não gostava de lutas mas de resto era cheio de uma nobre generosidade, envia sua blusa aos três cavaleiros que a servem em Minne para que a usem como a túnica na justa organizada por seu marido, sem nenhuma outra armadura ou cobertura além do capacete e dos protetores das pernas. O terceiro, que é pobre, pega a blusa em seus braços durante a noite e a beija, apaixonado. Na justa ele se apresenta com a blusa como túnica, sem armadura por baixo; ela é rasgada e manchada com o seu sangue; ele é gravemente ferido. Nota-se sua extraordinária valentia e ele recebe o prêmio; a dama entrega-lhe o coração. Agora o amante exige sua recompensa. Ele envia a blusa ensangüentada de volta, para que ela a vista, como está, por cima de suas vestes no banquete que encerra o torneio. Ela abraça a blusa ternamente e se apresenta no banquete com a peça ensangüentada; a maior parte dos presentes a criticam abertamente, o marido está constrangido, e o narrador pergunta: qual dos dois amantes fez mais pelo outro?

Essa esfera apaixonada, o único lugar em que os torneios tinham significado, também explica a determinação com que a Igreja havia muito combatia o costume. Que eles tenham de fato se tornado motivo de terríveis adultérios, é algo que foi testemunhado, por exemplo, em um torneio de 1389 pelo monge de Saint Denis e, com base na sua autoridade, Jean Juvenal des Ursins. O direito canônico havia muito já o tinha proibido: originalmente úteis para treinamento para combates, como se dizia, haviam se tornado intoleráveis, dados os inúmeros abusos. Os reis os adotavam com restrições. Os moralistas os desprezavam. Petrarca pergunta, pedante: onde podemos ler que Cícero e Cipião fizeram torneios? E o Burguês de Paris dava de ombros: “até onde sei, eles começaram a discutir por um motivo bobo qualquer”, diz sobre um célebre torneio.

O mundo da nobreza, pelo contrário, confere a tudo que se refere a torneios e disputas cavaleirescas uma importância que não se compara à de nenhuma prática esportiva de hoje em dia. Era um costume muito antigo erigir uma placa no local em que se estivesse disputando um duelo famoso. Adão de Bremen conhece uma na fronteira de Holstein e Wagrië, onde certa vez  um guerreiro alemão havia matado o líder dos Wenden. O século XV ainda erigia  tais monumentos em memória de duelos cavaleirescos famosos. Em Saint Omer, La Croix Pélerine lembra a luta de Hautbourdin, bastardo de Saint Pol, com um cavaleiro espanhol, durante o renomado Pas d’armes de La Pélerine. Ainda meio século mais tarde, Baydard, antes de um torneio, foi em peregrinação visitar formalmente essa cruz. A decoração e a vestimenta usadas no Pas d’armes de La Fontaine dês Pleurs, após o encerramento da festa, foram oferecidas solenemente a Nossa Senhora de Boulogne e penduradas na igreja.

A luta com espadas na época medieval distingue-se, como já foi indicado, da grega e da moderna em virtude de sua menor naturalidade. Visando aumentar o suspense da competição, ela possui o estímulo do orgulho e honra aristocráticos, aquele do erótico-romântico e da exibição exagerada. Ela é sobrecarregada de pompa e enfeites, repleta de fantasia colorida. Além de jogo e exercício físico, ainda é literatura aplicada. Os desejos e os sonhos do coração poético procuram uma representação dramática, uma realização encenada na própria vida. A vida real não era suficientemente bela, mas dura, cruel e falsa; na carreira militar e na corte havia pouco espaço para sentimentos de coragem em nome do amor, mas a alma está repleta deles, quer-se vivenciá-los e se cria uma vida mais bonita com jogos preciosos. O elemento de verdadeira coragem certamente não é menos valioso no torneio cavaleiresco do que no pentáton. Era justamente o caráter erótico evidente que exigia uma intensidade sangrenta. No que diz respeito aos temas, o torneio está próximo dos antigos épicos indianos: em Mahabharata, a luta pela mulher também é tema central.

O enredo fantasioso do jogo marcial era aquele dos romances do Rei Artur, ou seja, da imaginação infantil dos contos de fada: a aventura onírica com encontros entre gigantes e anões, ligada ao sentimentalismo do amor cortesão.

O outono da idade média – Johan Huizinga
Cosacnaify
ISBN 8575037560

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