Diga, onde está Salomão, outrora tão nobre
Ou Sansão, o líder invencível, onde está?
E o belo Absalão, de rosto maravilhoso,
Ou o terno Jonas, muito afável?
Para onde foi César, alto no poder supremo?
Para onde foi o famoso rico (Crasso), totalmente absorvido na refeição?
Diga onde está Túlio (Cícero), famoso pela eloqüência
Ou Aristóteles, o sumo da razão?
Nenhuma época impôs a toda uma população a idéia da morte continuamente e com tanta ênfase quanto no século XV. […] O que restou de toda essa beleza e glórias humanas? Lembranças, um nome. Mas a melancolia desse pensamento não é suficiente, dada a necessidade de um intenso calafrio diante da face da morte. Portanto o tempo chama a atenção para um medo mais visível, a perecibilidade a curto prazo: o apodrecimento do corpo.
O espírito do homem medieval que renuncia ao mundo sempre apreciou demorar-se junto ao pó e aos vermes: nos tratados religiosos sobre o desprezo do mundo, todos os horrores da decomposição já tinham sido evocados. Mas a elaboração dos detalhes só vem mais tarde. Só por volta do final do século XIV as artes plásticas se apropriam desse motivo; um certo grau de habilidade na expressão realista era necessário para dar a forma apropriada à escultura ou à pintura, e essa capacidade foi atingida por volta de 1400. Ao mesmo tempo, o motivo da literatura religiosa espalhar-se para a literatura popular. Até muito tarde no século XVI as lápides serão ornadas com imagens repugnantes de cadáveres nus e apodrecendo, com mãos e pés crispados e as bocas abertas, com os vermes se retorcendo nas entranhas. O pensamento se demora frente a esse espetáculo horroroso. Não é estranho que eles não ousem dar um passo adiante para ver como também esse apodrecimento outra vez se desfaz, transformando-se em terra e flores?
[…] Existia um hábito de, imediatamente após o falecimento de uma pessoa estimada, retocar os traços do rosto para que não houvesse nenhum sinal visível de putrefação antes do enterro. O corpo de um pregador da seita herética dos turlupinos, que falecera na prisão em Paris antes da sentença, foi mantido por quatorze dias em um tonel com cal, pois assim poderia ser queimado junto com outro herético vivo. Amplamente difundida, no caso de cadáveres de pessoas importantes falecidas longe de onde moravam era a prática de cortá-los em pedaços e cozinhá-los durante o tempo necessário para que a carne se soltasse dos ossos, que em seguida eram limpos e remetidos em uma mala para que pudessem ser enterrados solenemente, enquanto as entranhas e a carne eram enterradas no local da morte. Nos séculos XII e XIII isso estava tão em voga que alguns bispos e vários reis tiveram esse tratamento. Em 1299, e novamente em 1300, o papa Bonifácio VIII proíbe terminantemente a prática, por ser um “abuso de detestável barbárie, a partir da qual alguns fiéis mantêm um costume horrendo”. Não obstante, ainda no século XIV, houve em algumas ocasiões a liberação papal da prática, e, no século XV, o costume ainda era honrado pelos ingleses na França. Os corpos de Eduardo de York e Michel de La Pole, conde de Suffolk, ingleses da alta aristocracia mortos em Azincourt, receberam esse tratamento. O mesmo aconteceu com o próprio Henrique V e com Willian Glasdale, que se afogou durante a libertação de Orléans por Joana d’Arc, e também com um sobrinho de Sir John Fastolfe, que morreu no cerco a Saint Denis em 1435.
A figura da Morte havia séculos aparecia nas representações plásticas e literárias sob mais de uma forma: como cavaleiro apocalíptico arremessando-se intempestivo sobre um grupo de pessoas jogadas no chão, como megera com patas de morcego estendias para baixo, como no Campo Santo em Pisa, o esqueleto com a foice, ou com o arco e flecha, por vezes indo em uma carruagem puxada por bois ou ainda montada num boi ou numa vaca. Porém a figura personificada da Morte não satisfazia a fantasia.
No século XIV surge a maravilhosa palavra macabre, ou como ela soava originalmente: Macabré. “Eu fiz a dança de Macabré”, diz o poeta Jean Le Fèvre em 1376. Trata-se de um nome próprio, seja qual for a tão discutida etimologia da palavra. Foi só bem mais tarde que se extraiu de “La danse macabre” o adjetivo que para nós adquiriu uma nuance de significado tão nítido e próprio, a ponto de com ele podermos marcar toda a visão da morte do fim do período medieval. A concepção macabre de morte na nossa época ainda pode ser encontrada sobretudo em cemitérios de aldeias, onde se ouve o seu eco em versos e imagens. No final da Idade Média, ela se tornara uma importante concepção cultural. À idéia da morte mesclou-se um elemento novo, fantástico e hipnotizante, um calafrio que brotou da área consciente do gélido pavor fantasmagórico e de terror frio. O conceito religioso onipotente transformou-o imediatamente em moral, convertendo-o em memento mori, mas gostava de usar toda a sugestão horripilante que o caráter espectral da imagem trazia consigo.
O outono da idade média – Johan Huizinga
Cosacnaify
ISBN 8575037560

segunda-feira, 15 agosto, 2011 


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