Quando Thomas Henry Hurley perdeu seu jovem filho, “nosso prazer e nossa alegria”, devido à escarlatina, Charles Kingsley tentou consolá-lo com uma longa peroração sobre a imortalidade da alma. Huxley, que inventara a palavra “agnóstico” para descrever seus próprios sentimentos, agradeceu a Kingsley por sua preocupação, mas rejeitou o confronto proferido por falta de provas. Numa famosa passagem, desde então tomada por muitos cientistas como um mote para a atitude correta, escreveu: “Meu negócio é ensinar minhas aspirações a conformarem-se com os fatos, e não tentar levar os fatos a harmonizarem-se com minhas aspirações… Sente-se diante dos fatos como uma criança pequena, esteja preparado para abandonar todas as noções preconcebidas, siga humildemente para qualquer abismo, ou para onde quer que a natureza conduza, ou nada aprenderá.” Os sentimentos de Huxley eram nobres, seu pesar, comovente. Mas ele não seguiu sua própria afirmação, e nenhum cientista criativo jamais o fez. Os grandes pensadores nunca são passivos perante os fatos. Eles põem questões à natureza, não a seguem humildemente. Têm esperanças e suposições e tentam arduamente construir o mundo à luz delas. Por este motivo, os grandes pensadores também cometem grandes erros.
[…] Não precisamos da série Raízes para lembrar que a genealogia exerce um estranho fascínio sobre as pessoas. Se desvendar os traços de um distante bisavô numa pequena vila do outro lado do oceano nos enche de satisfação, então investigar mais para trás, até um macaco africano, um réptil, um peixe, aquele ainda desconhecido antepassado dos vertebrados, um precursor unicelular, até a própria origem da vida, pode ser positivamente fantástico. Infelizmente, pode-se dizer, perversamente, que quanto mais retrocedemos mais fascinados ficamos e menos sabemos.
[…] Para a maior parte das pessoas, a extinção carrega muitas das conotações atribuídas ao sexo – algo vergonhoso, que ocorre com freqüência, mas não para a honra de ninguém, e que não deve ser discutido em círculos respeitáveis. Tal como o sexo, a extinção é uma fatalidade da vida. É o destino último de todas as espécies, e não o apanágio de criaturas infelizes e mal projetadas. Não é um sinal de fracasso. O fato notável acerca dos dinossauros não é que eles se tenham extinguido, mas que tenham dominado a Terra durante tanto tempo. Os dinossauros mantiveram-se durante 100 milhões de anos, enquanto os mamíferos, durante todo esse tempo, viveram como pequenos animais nos interstícios de seu mundo. Após 70 milhões de anos no topo, nós, os mamíferos, temos um excelente recorde de pista e boas perspectivas para o futuro, mas precisamos ainda desenvolver o poder de permanência dos dinossauros. À luz desse critério, as pessoas são dificilmente dignas de menção – talvez 5 milhões de anos desde o Australopithecus, uns poucos 50.000 para a nossa espécie, Homo sapiens. Façam um último teste dentro do nosso sistema de valores: conhecem alguém que apostaria uma soma substancial, mesmo em condições favoráveis, na proposição de que o Homo sapiens durará mais tempo que o brontossauro?
O Polegar do Panda – Stephen Jay Gould
Martins Fontes
ISBN 8533619634

quinta-feira, 1 setembro, 2011 

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