Ciência e Esperança

“Dois homens chegaram a um buraco no céu. Um pediu ao outro ajuda para se erguer até a abertura… Mas era tão bonito no céu que o homem que espiou pela beirada esqueceu tudo, esqueceu o companheiro a quem tinha prometido ajudar a subir e simplesmente saiu correndo para entrar em todo o esplendor celeste.”

Temeraire

Temeraire

A ciência progride; a arte se transforma. Os cientistas são intercambiáveis e anônimos perante suas realizações universais; os artistas são idiossincráticos e insubstituíveis na criação de suas singulares obras-primas. Se Copérnico e Galileu jamais tivessem existido, a Terra continuaria a girar em torno do Sol e os terráqueos acabariam por descobrir essa verdade natural no devido tempo. Se Michelangelo não tivesse existido, a capela Sistina, ainda assim, poderia ter seu teto pintado, mas a história da arte seria diferente e a humanidade, bem mais pobre. Essa descrição “padrão” das diferenças entre a arte e a ciência pertence ao gênero lastimável, e no entanto prevalente, das nossas dicotomias demasiado simplistas – contrastes rígidos que, na sua inflexibilidade, tanto esclarecem quanto distorcem, separando em pilhas rigorosamente distintas “e um e outro jamais se encontrarão/ Até que a Terra e o Céu compareçam perante o tribunal de Deus”.

A suposta inexorabilidade do progresso tecnológico, sob essa dicotomia deturpadora, leva ao mito da ciência virtualmente incorpórea – uma máquina dotada de ímpeto próprio e que se move a passos largos de maneira quase independente de qualquer condutor humano. Os cientistas, nesse modelo, se tornam anônimos e potencialmente invisíveis. Alguns poucos nomes sobrevivem como ícones e heróis – Edison e Bell como realizadores, Darwin e Einstein como pensadores. Mas se aceitamos a premissa de que a inovação tecnológica (na indústria, no armamento, nos transportes e na comunicação) propiciou mudanças sociais que vão muito além de todos os outros resultados do talento humano, como podemos solucionar o paradoxo de que as pessoas responsáveis por impulsionar a história humana permanecem de tal modo esquecidas? Quem é capaz de nomear o inventor da balesta, do zíper, da máquina de escrever, da máquina Xerox ou do computador?

A Montanha de Moluscos de Leonardo Da Vinci – Stephen Jay Gould
Companhia das Letras
ISBN 853590431X

Ainda sem comentários... Seja o primeiro a responder!

Deixe um comentário