Antes d
e tudo, ler é aterse à literalidade seca do texto, linha por linha, parágrafo por parágrafo. Quando se consegue isso, o passo seguinte é captar as entrelinhas e o sentido geral do argumento ou argumentos do texto – o sentido do texto junto com o seu espírito. Ah, sim! O espírito do texto, eis aí outro problema. Para poder tentar adentrar o espírito do texto, é preciso que o leitor saiba passar por “estados de espírito” diferentes, ricos. Um bom leitor é aquele que lê coisas de diferentes ordens e gêneros, inclusive alguém que vai ao cinema, ao teatro e se familiariza antes com a mudança de atitude em relação a gêneros e estilos de várias artes do que com a mudança de assunto em um só gênero e estilo. Melhor ainda é o leitor que lê ciência e literatura, procurando ver como são montadas essas narrativas. A própria filosofia é assim: o leitor melhor é aquele que consegue ler filosofia analítica e filosofia continental, que consegue ler Derrida e Russell. Esse “jogo de cintura” é um prerrequisito para “pegar o espírito”, mas não é tudo.
“Pegar o espírito” do texto é uma tarefa semelhante a “entender a piada”. Muitas vezes, isso se dá na mais tenra idade, antes mesmo de se aprender a ler. Há pessoas que não riem, não possuem humor para as piadas, são bloqueadas por uma série de circunstâncias e, portanto, possuem limitada capacidade de compreensão da vida, do mundo e dos textos – mesmo daqueles que não são de humor. Esse tipo de indivíduo, bloqueado para certas vivências, realmente sofre para “pegar o espírito” de um texto. Em geral, projeta o pobre espírito que possui em variados textos e não entende nem mesmo o mais fácil deles. Sabe do que o texto falou, mas, por não entrar no “espírito do texto”, não consegue se inspirar para produzir seus próprios textos. Sua leitura não é a produtiva.
JR., GHIRALDELLI, Paulo. As Lições de Paulo Freire: Filosofia, Educação e Política.
ISBN 9788520434802

quarta-feira, 5 dezembro, 2018 

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