Javé, deus guerreiro e humano

Robin Lane Fox, historiador devidamente cético, em seu livro The Unauthorized Version (Versão não autorizada, 1992), insiste que “podemos ter certeza” de que nenhum texto bíblico, na forma em que hoje deles dispomos, existia anteriormente ao século VIII antes da Era Comum, mas não creio nisso. E.A. Speiser, estudioso extraordinário, no seu Anchor Bible Genesis (Gênese da Editora Anchor Bible), estabelece o século X antes da Era Comum, a época de Davi e Salomão, como a data das camadas mais antigas de Gênesis, Êxodo e Números. A Javista, ou Autora “J”, compôs os trechos primordiais magníficos, de algo que foi aglutinado em outros textos, por obra do autor-editor que, durante o exílio na Babilônia, organizou a seqüência que vai de Gênesis a Reis. Fox, com toda razão, considera tal conteúdo ficcional, inverídico, mas história bíblica, raramente, constitui “verdade”, no sentido restrito perseguido pelos historiadores profissionais, cuja retórica permite apenas um tipo de verdade bastante reduzida. Acreditemos ou não na Aliança, ou que Jesus foi o Cristo, ou acatemos ou não Alá, aceitando Maomé como o Selo dos Profetas, não parece proveitoso reduzir Javé a uma escolha entre verdade e ficção. Se Javé for ficção, trata-se da ficção mais perturbadora que o Ocidente já vislumbrou. Javé será, ao menos, a ficção suprema, o personagem literário (se assim pudermos chamá-lo) que se presta à meditação, ainda mais do que Jesus Cristo, ou do que as caracterizações shakespearianas mais abrangentes: Faltaff, Hamlet, Iago, Lear, Cleópatra. “J” é o Shakespeare de Javé, mas não é o inventor de Deus.

O início da carreira de Javé precede qualquer narrativa de que dispomos, o que instiga a imaginação. Quando reflito acerca de Javé, gostaria de saber de onde ele veio, bem como por que demorou tanto tempo para revelar seu nome. Ficamos conhecendo suas várias personalidades (sete, na minha conta), mas permanecemos atônitos diante de seu caráter. Porventura ele também ficasse atônito, antes de atribuir a si mesmo o nome de Javé. Afinal, ele havia sugado diversos outros deuses e divindades, e uma certa dispepsia é conseqüência certa.

Sabemos como ele parece, apesar de ele proibir os seus retratos. Parece conosco, ou melhor, nós parecemos com ele, pois fomos criados à sua imagem. A Cabala e seus antecedentes nos informam que ele é enorme, o King Kong cósmico das divindades. Jack Miles diz que Deus fala sozinho; eu acrescentaria que Javé nunca ouve a si mesmo, como quem ouve outra pessoa. Não é, portanto, um personagem shakespeariano e, sensatamente, Shakespeare o manteve fora do palco. Javé, que não é narcisista, pode parecer sê-lo. Ricardo II é narcisista; Hamlet não é. Por definição, Javé, ao contrário de Ricardo II, não pode ter compaixão de si mesmo. Tampouco tem compaixão de si mesmo Rei Lear (figura que se assemelha a Javé), cuja fúria chega à loucura. Javé, que tanto sofre por qualquer ingratidão, e é extremamente ciumento, chega à insanidade, durante os quarenta anos em que conduz os israelitas pelo deserto, na louca jornada do Egito até Canaã. Uma geração perece, mas seus filhos alcançam a Terra Prometida. O próprio Moisés, profeta de Javé, vislumbra a terra, mas nela não é admitido. Javé, que costuma criar muita encrenca, cria a maior delas quando elimina Moisés. Mas, cumpre lembrar, para Moisés, Javé é um desastre desde o princípio. Lamento insinuar que, de modo geral, Javé é um desastre para todos os seus heróis, mas essa é mesmo a longa história da Tanak, e da maior parte da experiência judaica através do tempo. Se duvidarmos da Encarnação (até São Paulo duvidou), então, o debate recentemente renovado por Mel Gibson acerca da culpa dos judeus, e não dos romanos, pode ser posto de lado. Javé tem culpa.

Quando Javé, muitos séculos depois, tornou-se o Deus da Reforma Protestante, pensou-se que ele dizia a cada protestante: “seja como eu, mas não ouse parecer demasiadamente comigo.” O Javé da Autora “J” não precisa fazer outras admoestações, exceto que devemos nos abster de comer o fruto da Árvore da Vida, que nos tornaria imortais. Theodore Hiebert, na obra The Yahwist’s Landscape (A paisagem do Javista, 1996), observa, com sagacidade, que se trata de vida eterna na Terra, e não em algum reino do além. O Javé de “J” gosta de caminhar no frescor da tarde, no jardim do Éden, e aprecia um repasto com Abraão. Jesus, que, quando pode, rende-se ao vinho e à boa mesa, nunca é tão semelhante a Javé quanto nesses banquetes. O “pense na Terra”, de Nietzshe, é javista, uma vez que o Javé de “J” é fascinante em seu antropomorfismo, o que pode ser constatado quando ele mesmo fecha a porta da arca de Noé, ou enterra Moisés com suas próprias mãos. E o que é mais importante: Javé molda Adão a partir de adamah, a terra vermelha, úmida e fecunda. Homero mostra-nos a guerra entre deuses e homens; a Autora “J” vai além, retratando mulheres e homens teomórficos que caminham e falam com Javé. Sucintamente: o Javé de “J” não é um Deus do céu, é um Deus que se reveza entre os campos cultivados e os cumes das montanhas.

Frank Cross destaca Javé como Deus dos rompantes, mas tais reações configuram tão-somente um canto de guerra que anuncia o guerreiro divino que subjuga o mar (o Faraó) e os inimigos terrenos de Israel. Embora passe por um amadurecimento consideravelmente matizado, Javé inicia de maneira ambivalente, como criador e destruidor, à semelhança do Vento do Oeste, em Shelley. Mas antes de esboçar suas aptidões de lutador, concedo a mim mesmo uma digressão, no intuito de descrever a qualidade surpreendente de Javé: sua estranheza.

Javé não é, primordialmente, um deus trapaceiro, e nem sempre se apraz em agir com perversidade, embora se permita gerar confusão entre os pretensos construtores da Torre de Babel. Mas ele cria todas as coisas, inclusive a categoria do inesperado. O gênio da Autora “J”, que irrompe através do palimpsesto do trecho bíblico compreendido entre Gênesis e Reis, repele o confinamento. Não há limites para Javé, motivo pelo qual sua Benção é mais bem definida como o dom da vida longa, em um tempo ilimitado. O céu na Terra é a sua promessa; o Reino dele, decididamente, é deste mundo. Hiebert registra que Javé não é nem onisciente nem onipresente; precisa deslocar-se, a fim de levar a termo, pessoalmente, suas investigações.

Apesar de imortal, Javé envelheceu, e talvez esteja idoso demais para se importar como o que ocorre. Não estou pensando na aparência de Javé como Ancião dos Dias, do Livro de Daniel, que Willian Blake transformou, ironicamente, em Velha Ignorância, ou “Velho Nobodaddy (Velho pai de ninguém) nas alturas”. Na figura do Alá de Maomé, o que mais me impressiona é o fato de ele continuar, ferozmente, a se importar com o que se passa, motivo pelo qual o islã permanece militante. O Deus Pai do cristianismo também se importa, mas é uma miniaturização de Javé, e carece de personalidade. Esse declínio é necessário no panteão quádruplo que ele compartilha com Jesus Cristo, o Espírito Santo e a Santa Virgem Maria. O livro The Muslim Jesus (O Jesus muçulmano, 2001), conforme editado por Tarif Khalidi, é uma chave da diferença existente entre Alá e Deus Pai. O Alcorão coloca Jesus na posição singular de profeta que antecipa, diretamente, Maomé, mas esse é um Jesus inteiramente destituído de cristianismo e “purificado” da Encarnação, Crucificação, Perdão e Redenção. Resta apenas a Ascensão, para que Jesus seja destacado dos profetas anteriores, embora no pensamento shií e, mais tarde, no sufismo, as ascensões de Enoque e do neto de Maomé, Hussayn, estejam relacionadas a um Jesus gnóstico – o Cristo Anjo, conforme é, por vezes, denominado. Jesus não morre, mas ascende a Alá, e permanece com Alá, a fim de estar presente no Fim (aludido no Alcorão 43:61). Mas, é bom lembrar, o Alcorão (61:6) apresenta Jesus anunciando a vinda de Maomé, na condição de selo de todas as profecias. Alá se acalma depois que, veementemente, indaga de Jesus se ele e Maria são dois deuses além de Deus, e Jesus responde, placidamente, que jamais disse tal coisa (Alcorão 5:116).

Não há textos judaicos no quais Javé solicite a Jesus semelhante explicação, mas tal pedido não seria previsível. Volto ao Javé anterior, combativo, cuja personalidade guerreira é mais vistosa no Livro de Josué (5, 13-15), em que o Redator mitiga o que é, nitidamente, uma epifania estonteante experimentada pelo próprio Javé, prestes a participar de uma batalha, em Jericó:

Certa vez, estando perto de Jericó, Josué levantou os olhos e viu em pé diante de si um homem portando a espada desembainhada. Josué se aproximou dele e perguntou: “És um dos nossos ou dos inimigos?” Ele respondeu: “Eu sou chefe do exército do Senhor. Acabo de chegar!” Então Josué prostrou-se com o rosto por terra e perguntou: “O que diz o meu Senhor a seu servo?” O chefe do exército do Senhor respondeu a Josué: “Tire as sandálias dos pés, porque o lugar onde você está pisando é sagrado.” E Josué assim fez.

A Tanak é uma cavalgada de episódios memoráveis, mas guardo comigo, de modo permanente, essa manifestação de Javé como espadachim. O drama desse momento é hábil. Josué, comandante de Israel, não reconhece o soldado e pergunta, com bravura: “És um dos nossos ou dos inimigos?” Javé responde em sua própria pessoa, não apenas na condição de chefe angelical, dizendo: “Acabo de chegar!” E Josué, ao pedir ordens, ouve precisamente o que Moisés capta em Êxodo 3, 4-6: a advertência de que está na presença de Javé e está em solo sagrado, de pés descalços. Abruptamente, o livro de Josué prossegue até o cerco a Jericó, e Javé determina a destruição das muralhas da cidade. Não vemos o Deus Pai cristão de espada em punho.

Embora a personalidade e o caráter de Javé não sejam o assunto explícito do livro, considero o estudo incisivo e compacto, intitulado Sinai and Zion: Na Entry into the Jewish Bible (Sinais e Sião: uma entrada na Bíblia hebraica, 1985), de Jon D. Levenson , bastante útil para se meditar acerca de Javé. A antiga religião israelita é centrada no monte Sinai, onde a Torá foi entregue por Javé, no monte Sião, onde Salomão construiu o Templo de Javé. Levenson salienta uma verdade: a diferença crucial entre o judaísmo talmúdico e a religião bíblica é que os rabinos enfocam a Bíblia, após a destruição do Templo. Os dois montes, da Aliança e do Templo, aproximam Moisés e Davi, o profeta de Javé e o filho adotivo de Javé. A opção de Javé por locais elevados não é infundada, porque, na condição de guerreiro, ele desce dos montes para combater os inimigos. Seu Templo, conforme demonstra Levenson (seguindo Ezequiel, de modo particular), é espiritualmente idêntico ao luxuoso Jardim do Éden, onde ele se aprazia em caminhar na tarde fresca. Quando Adão e Eva são expulsos do Paraíso (para que não se tornem deuses), o Jardim continua a existir, guardado por um querubim. Por conseqüência, a destruição do Templo de Javé foi também a obliteração do Paraíso, que jamais voltaria a existir, a não ser que o Templo fosse reconstruído. Mas se a própria Bíblia substitui o Templo, então, o livro substitui também o paraíso, noção que talvez explique por que Akiba insistia, com tamanha paixão, que o Cântico dos Cânticos que é de Salomão, deveria ser canônico.

Incapacitado de caminhar no Éden ou de se regalar no Templo, Javé reside na Bíblia hebraica. Ali se sente tão confortável que pode prescindir do Terceiro Templo, a menos que atualmente (conforme a mim parece, embora não aos que ainda crêem na Aliança) ele tenha se exilado até mesmo do deleite daquelas páginas.

Jesus e Javé, os nomes divinos – Harold Bloom
Objetiva
ISBN 8573027657

3 Respostas para “Javé, deus guerreiro e humano”

  1. Avatar de Desconhecido

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